Minha vida foi a morte até o
renascer.
Faz trinta anos que tento me
liberta dessa maldição que me prende a esse inferno que é a minha morte. A
minha vida foi muito breve. Porque fui àquela maldita torre? Era uma
sexta-feira 13 e sempre ouvi as lendas sobre aquele lugar, mas era inquietante
a tal curiosidade, foi ela que me atraiu. Ela precisava de alguém, mas porque eu?
Eu era novo de mais, ela sumiu com meu corpo, morto e conservado. Sei que esta
nessa torre, mas onde? Talvez isso me liberte
talvez isso seja a chave para me salvar: achar meu corpo para ser dono da minha
alma.
Contudo, ainda tenho uma única
diversão, na verdade sofria com isso, o fato das pessoas terem medo de mim, mas
depois me acostumei e comecei a rir da desgraça dos outros, a cara de pânico às
vezes me assusta e me deprimo com minhas próprias brincadeiras, tenho pena dos
meus brinquedos, os vivos, pois um dia já fui assim frágil, mortal e livre, e
me esqueço da minha condição triste de um preso a céu aberto, de um preso de
uma cadeia sem muros, preso em alguém. Nessa
solidão eu fico procurando me encontrar nos espaços vazios. Tenho culpa também
e por isso sofro.
Nessa noite sombria, sozinho nessa torre,
procurei em todas as minhas coisas velhas, perdidas ao tempo, algumas fotos
minhas de quando era vivo. Achei a foto que foi tirada dois dias antes da minha
morte, nós estávamos abraçados: melhores amigos. Foi mais dolorosa a traição do
que as facadas, hoje ela é uma menina, mas já foi uma mulher, uma das mais
doces que já conheci, e a mais falsa também. Para falar a verdade nem sei o que
é aquilo, uma coisa que vaga de corpo em corpo possuindo-os, quando me matou
estava no corpo de uma jovem na mesma idade que eu, na época tínhamos dezessete
anos, pelo menos eu tinha, já ela não sei, mas o que eu achei mais estranho foi
ela ter me matado, mas não usou meu corpo como se me quisesse para outra coisa.
Volta e meia a vejo falando sozinha, diz que está chegando a hora, tenho medo, não
dela, porque isso já perdi faz tempo, mas do que ela vai fazer. Quanto mais o
tempo vai passando percebo que ela necessita trocar de corpo mais rapidamente, pois
ela suga todas as forças vitais e em um ano uma mulher de vinte anos já tem forma,
força e saúde de uma de oitenta, mas ultimamente em quinze dias já fez todo
esse estrago e parece estar cada dia mais forte, tem vezes que a encontro
trancada na torre falando sozinha em frente a algo que ela protege com
bruxarias e feitiços muito poderosos. Será que meu corpo estava ali? Ela usa
uma chave e palavras para abrir. Sinto que ali dentro está o segredo.
Após algum tempo ela chegou para
mim muito séria, ainda estava na forma de uma menina, muito branca de roupas
negras, uma faixa no pescoço e com feridas escritas em todo o corpo, não dava
para ler o que estava escrito por estar toda suja de sangue, e com um sorriso
irônico e amedrontador me disse com calma e prazer:
¾
Chegou o dia, o tão esperado dia.
¾
Dia de quê?
- Disse eu já apavorado
¾
De começar os rituais, pois hoje faz exatamente
11000 dias que você... ou melhor que eu te
matei – O gosto como ela falou que me matou era surpreendente – Vamos,
está esperando o quê?
¾
Vamos aonde?
¾
Deixe de perguntas e ande.
Como um cachorro amarrado fui não
tinha como fugir, então, pela primeira vez após tanto tempo eu vi meu corpo,
corri para tocá-lo e ela nem tentou me impedir:
¾
Não é isso que vai te liberta de mim, pelo
contrario, é isso que nos liga. Nós precisávamos de um corpo e você foi o
escolhido, era quem nós procurávamos.
¾
Nós? Nós quem? E porque me procuravam?
¾
Nós, eu e o espelho, eu mesma te contei essa
lenda quando éramos amiguinhos, o
espelho da vida, o possuidor de almas, o duque das trevas, que de tempos em
tempos recruta alguém com uma alma pecadora, má e que goste de fazer o mal. Ele
sabia que eu era perfeita para isso e minha missão era encontra uma pessoa
ingênua, besta, de alma boa, e que resistisse a minha encarnação vaguei
dezesseis anos atrás de você.
O meu pavor corria como sangue, estranho um espirito fazer isso,
sentir como se tivesse sangue em suas veias, mas eu sentia meu corpo como se
estivesse assim, sentia o frio e a dor de todas as facadas de trinta anos
atrás.
¾
Mas o que meu corpo tem a ver com isso? - Respondi
¾
Mais perguntas! O corpo é a melhor forma de
chegar a uma alma e ele sempre guarda um pouco de sua essência espiritual, má
ou boa, e após tanto tempo vagando nessa forma aprendendo o prazer em ver a dor
dos outros, em assustar, em apavorar, você está pronto, pois seu ódio por mim e
sua diversãozinha amaldiçoam sua alma, e só a uma forma de te matar por
completo, te matar em partes primeiro a alma com um ritual de feitiçarias
negras e depois seu corpo decapitando-o e queimando sua cabeça e por último
juntar seus restos, de corpo e alma, e sugar por completo sua essência.
¾
Burrice sua achar que eu era uma pessoa tão
boa e que vou esperar você me matar.
Tentei
fugir o mais rápido possível, mas estava preso, imóvel, sem saídas.
¾
Você acha que foi escolhido só por ser
bonzinho? Você é um dos demônios que fugiram do submundo, por serem corretos demais
e não conseguirem completar suas missões. Agora se lembra?
¾
Não sou nenhum demônio! Nasci, cresci e morri
como um ser humano... – Recrutei
¾
Não tente me enganar, não sou idiota –
Respondeu a menina, rispidamente.
Do nada saiu do espelho um homem. Seu
reflexo era de um ser parecido com um homem muito deformado e assustador, olhos
pretos cobertos de sangue e quando ela se aproximou dele seu reflexo era menos
assustador, e do nada uma voz forte como um trovão soou no ar:
¾
Cadê o seu escolhido?
¾
É este – disse ela com a voz oprimida, bem
diferente da que usava para falar comigo, tinha um tom de medo e respeito muito
grande.
¾
Fique em frente a esse espelho – ordenou com
muita fúria.
Meu
reflexo era muito diferente do deles, era um reflexo de anjo. Bonito, de roupas
claras, mas asas negras como uma mistura do bem com o mal, quando de repente aquele homem que era até apresentável, foi se
transformando na criatura que tinha visto no espelho ,estava mais furioso que
antes :
¾
Como você pode cometer um erro desses?
¾
Mas que erro? – disse a menina, sem entender.
¾
De trazer um anjo expulso ao em vez de um demônio.
Por pior que o seja ele ainda é um anjo e já tinha uma alma boa, com sua
burrice conseguiu se enganar, sua idiota! Não poderia ter feito escolha pior, perder
46 anos para ter um anjo preso a mim. E você – voltou-se para mim com olhar
extremamente enraivecido – porque não disse ser um anjo? – naquele momento ela estava
pálida e tinha cara de dor talvez ele estivesse fazendo-a sentir aquilo, por
mais que eu não gostasse dela era de dar dó.
¾
Porque
não sabia! – respondi – e não sou um anjo, eu era uma pessoa.
¾
Cada hora eu me surpreendo mais com você –
voltou-se novamente para a menina – Nem um anjo expulso ele é, é um anjo
guardado para o futuro e para ajudar os que vêm, por isso ele não se lembra de
nada.
¾
Mas o senhor não me disse nada sobre isso. –
Disse ela
¾
E precisava dizer eu pedi um demônio e pensei
que não precisaria dizer que um anjo e um demônio são diferentes.
¾
Mas... – aquele espírito escondido num
rostinho de menina tentava concertar o erro fatal que cometeu.
¾
Deixe de “mas” eu não sei o que vou fazer com
você, mas se prepare. Agora vou resolver outro assunto. – ele foi em direção ao
espelho já parecia ir embora
¾
Espere, e eu? – gritei
¾
Você? O que tenho a ver com você? – ele
parecia tentar fugir
¾
O que sou eu? E como me liberto?
¾
Você foi uma das maiores besteiras que alguém
já criou. A mistura de anjo com demônio.
¾
Mas como me liberto?
¾
Volte a seu corpo durma e tudo voltara a ser
como era antes.
¾
Mas eu não quero que seja como era, quero assumir
a minha verdadeira forma, a que vi no espelho, porque se sua forma é essa, a
minha é aquela que vi, e pela sua cara sou superior a você.
¾
O que você quer?
¾
Que ela suma e que eu tome meu lugar.
¾
Mas para isso você tem que escolher entre o
bem e o mal.
¾
Primeiro quero o mal depois descubro como
assumir o bem – ele tinha mais medo de mim do que eu já tive durante toda a minha
existência, chegou a ser cômico, era prazeroso o sofrimento dele – Então? Ande!
Me de meu poder – do nada uma força surpreendente me tomou e meu corpo que
estava deitado em uma mesa sumiu e eu tinha a forma igual àquela vista no
espelho.
O mal começou
a me possuir, era algo muito forte. Minha voz saiu como um grito grave e no
mesmo instante uma fumaça densa e um clarão tomaram todo o lugar. Quando o ar
estava mais limpo eles haviam sumido, havia apenas o corpo dela, mas sua alma
já não estava mais lá. Dele tinha apenas um reflexo no espelho que me olhava.
Com uma fúria incontrolável fui em direção ao espelho e o quebrei enquanto ele
gritava desesperadamente, me acalmei e desejei jamais ter existido, pois me
sentia igual a ele, sem essência, sem vida.
Então meu
corpo estava novamente ali, todo sujo, frio e mortal. Então me deitei sobre ele
e quando acordei eu tinha voltado no tempo horas antes da minha morte e da
mesma forma aquela jovem me chamou com um jeito suave e hipnotizador, era quase
irresistível não ir com ela, mas dessa vez eu estava preparado, fui até a torre
e antes que ela pudesse me atacar a empurrei para dentro de espelho. Ao se
chocar com ele uma sombra negra saiu do corpo dela e penetrou o espelho e ficou
apenas a menina que eu conhecia e era apaixonado. Não se lembrava de nada do
que tinha acontecido nos últimos tempos com ela, mas lembrava de mim e do nosso
amor. Aprendi a controlar os meus dons, uso mais o bem, mas quando é necessário
se dar alguma lição o mal é bem vindo, também não o uso para besteiras, apenas
quando a há almas más e poderosas que podem prejudicar alguém, assim como o
duque das trevas que mexeu com a pessoa errada.
E por ter
essa história digo: que minha vida foi a morte o renascer!