Diário de bordo, centro antártico. 29/10/1887
Vindo do norte gélido, um vento lento congelou a minha pele mesmo estando encouraçada de casacos. Pude ouvir os zumbidos da nevasca ecoando dentro da caverna em que me encontrava, mesmo sobre tantos quilos de roupa, ainda sentia arrepios vindos pela minha coluna partindo do centro e passando por todos os nervos do meu corpo. Afastando-me da friagem resolvi me aprofundar mais na escuridão e com isso me confortar um pouco mais, liguei minha lanterna, ela já apresentava sinais de pilha fraca, ouvi falar que o frio acaba com as pilhas mais rápido. Mesmo mal iluminado, o caminho prosseguiu sem nem um problema, só que, por um relapso de tempo, ouvi o som de rachaduras vindo do chão, congelei, não movi um único músculo, prendi minha respiração, já estava ficando roxo quando a falta de oxigênio me entonteceu desequilibrando-me e com isso me fazendo movimentar meu pé direito alguns centímetros colocando-lhe peso. Foi o suficiente para fazer o chão desmoronar sob meus pés, cai sob uma superfície dura, estava extremamente escuro, só tinha a lanterna como fonte de luz e o buraco por onde caí claramente inalcançável, devo ter torcido o pé, não, foi apenas uma lesão leve, mas ainda assim não conseguia andar direito. Peguei a lanterna que estava do meu lado no chão, ocasionalmente, o chão fez um barulho novamente, mas na um som de rachadura, foi uma espécie de vibração, as pedrinhas ao meu redor saltitaram, e então pararam. Meu sangue parou de tanto medo, a adrenalina perdia o efeito anestesiante e começou a me causar pânico juntamente com o cortisol, meus batimentos cardíacos pareciam pular pela minha garganta, me desesperei, peguei a lanterna e saí andando para qualquer direção dentro deste buraco. Fui burro, minha equipe logo procuraria por mim que já anunciara estar indo para esse abrigo, agora estou perdido na escuridão com um pé lesionado e uma lanterna prestes a apagar.
Senti novamente a vibração vinda do chão, ele palpitava e rangia, agora mais calmo procuro uma explicação cientifica, não acho, continuo andando e procurando pelo buraco por onde entrei, o chão vibra ainda mais, não parece um terremoto e nem pode ser, a área onde estou se encontra muito longe de qualquer borda das placas tectônicas, também não tem vulcões. O frio começa a afetar minha mente, vim nessa expedição para estudar umas ilhas rochosas encontradas no gelo polar antártico, aparentemente foram formadas estas rochas desde a formação da vida na terra. Devem ter seres aqui que foram congelados e agora podem servir de espécime fóssil para pesquisas de como começou a vida na terra.
Vejo um clarão vindo de uma gruta no mais ao fundo, ao me aproximar constatei não ser uma saída, mas talvez um dos lugares mais belos que já vi. O sol batia no mar que refletia a luz por meio de cristais de gelo no teto fosco embranquecido, já devo estar abaixo do nível do mar, andei por uma espécie de corredor. Meu pé ainda doía, mas já estava melhorando aos poucos. Ouvi um barulho estridente e agudo ecoando pelo gelo, e um vulto passou por cima do teto provocando uma sobra sobre mim. Meu corpo tremeu mais de medo do que de frio, o barulho crescia e se repetia. Meu pé subitamente melhorou, eu corri, corri como se não tivesse pernas. Até que tropecei e sai deslizando quando bati minha cabeça em algum lugar. Parando para pensar deviam ser baleias. Quando acordei me encontrava na frente da caverna onde entrei de inicio, e quando olhei para o chão que antes tinha quebrado, o vi intacto e pensei ter só caído no sono, quando senti alguma coisa escorrer pela minha cabeça, e rapidamente coloque minha mão sobre o local, estava sangrando, gritei. Saí da caverna e corri para o acampamento, quando vi a neve pintada de vermelho. Uma voz sussurrou no meu ouvido: “Você não pensou que ia escapar pensou?”
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