Numa cidadezinha do interior da Inglaterra
bem próxima de Londres, vivia uma bela garotinha chamada Ângela. Certo dia, foi
descoberto que ela sofria de uma doença degenerativa que, gradualmente,
alteraria bruscamente a seu corpo, o que a tornou uma menina de pele opaca e de
aparência apodrecida. Os poucos cabelos que lhe restaram já não eram tão lindos
como foram outrora, se tornaram totalmente sem brilho.
Seu pai, homem bondoso que criava sua
Ângela sozinha desde que a mãe dela morrera, por nome Leonardo, não sabia mais
o que fazer para deixar a filha contente. O senhor de idade resolveu então
dar-lhe um presente, confeccionou uma boneca de porcelana idêntica à filha
quando era saudável. Ângela, por sua vez, ficou mais triste ainda, o presente
que seu pai lhe dera com tanto carinho apenas servia para lembra-la de quão
feia ela era.
Apesar de tudo, Ângela insistia em
frequentar a escola e em não deixar de sair nas ruas, para alegria dos
valentões e crianças malvadas da vizinhança. Chamavam-lhe de monstro,
aberração, chegaram a jogar-lhe pedras na face. O tempo passou, a garota
cresceu e se tornou uma adolescente fechada em sua própria casa, a imensa
tristeza que sentia na infância se transformou em ódio e sede de vingança.
Aqueles malditos iriam pagar, ah, iam sim.
Em questão de alguns meses, a doença
chegou a um estado crítico e levou a jovem à morte. Mas seu espírito não
descansaria em paz antes de dar fim a cada um que tornou a sua vida um inferno.
Não esperou nem mesmo algumas horas para pôr em ação seus planos malditos.
Ângela, quando viva, costumava deliciar-se imaginando como seria a morte de
todos os colegas e vizinhos que zombaram dela, e agora, ela podia ser a autora
dessas mortes. Nunca se esqueceu do nome de nenhum deles.
O primeiro alvo era Helena, jovem ruiva e
sardenta. Sua morte foi a menos brutal, enquanto dormia. Sombras de mãos
envolveram seu corpo e a sufocaram. Mesmo em sonhos, ela teve total consciência
de que Ângela viera lhe buscar, pois se viu dormindo abraçada a uma boneca de
porcelana cheia de cicatrizes, poucos cabelos e pele fosca.
Uma morte não seria suficiente par
satisfazer a alma errante de Ângela. Foi atrás da segunda vítima. Não, nenhum
deles merecia ser chamado de vítima, a única vítima era ela. Será que estava
sendo má demais? Não, é claro que não. Eles mereciam pagar por tudo.
Vagou até a casa de Mike. Este não teve a
sorte de estar dormindo, estava muito bem acordado e entrou em pânico ao ver a
imagem daquela boneca horrenda. Lembrava-lhe alguém, mas quem? Quem? Como se
chamava mesmo? Correu da visagem que se aproximava perigosamente dele, mas foi
em vão. As sombras de mãos levantaram o rapazola pelos braços e ele pode sentir
a presença de um rosto pertíssimo do seu. Foi aí que ouviu um grito rouco e
cheio de cólera bem na sua cara:
- O nome é Ângela! E “aberração” é a
sua mãe, filho da puta!
Então teve a cabeça decepada e o cérebro
esmagado. O irmãozinho do jovem tinha acordado com o barulho dos passos de
Mike, saiu do seu quarto e, no corredor topou com o corpo no chão, o que o
deixou paralisado. Ângela desculpou-se, agora com a voz baixa e doce:
- Você não estava nos meus planos,
mas não posso deixar testemunhas. Sinto muito.
As sombras envolveram o garotinho, que já
não sentia medo. As mãos do além envolveram seu pescoço num movimento busco e
preciso, dando-lhe uma morte rápida.
Havia ainda duas casas para serem
visitadas: a de Lucrécia e Yon, os líderes da “operação” da qual Ângela saiu
com o nariz escorrendo sangue e quebrado: quando levou pedradas no rosto. Tudo
porque o casal mais popular do colégio descobriu que Ângela mantinha uma paixão
secreta por Yon, e não desperdiçaram a ocasião para humilhá-la, e ainda
ameaçaram queimá-la viva caso os denunciassem. Vingança tarda mais não falha,
chegou a vez deles.
Não precisou ir a duas casas, encontrou os
pombinhos juntos na casa de Yon, num momento quente no quarto do jovem. Dessa
vez as sombras não trabalharam, todo o ódio de Ângela transformou em um fogo
ardente que consumiu os corpos deles restando apenas cinzas. Tiveram uma morte
lenta e dolorosa, precedida pela visão da boneca maldita.
Totalmente saciado, o espírito voltou à
sua casa e encontrou um homem dormindo. Era Leonardo. Como ela amava aquele senhor
de idade! O único de quem recebeu carinho a vida inteira. Deu-lhe um beijo na
testa e se foi. Pra nunca mais voltar. Ou não.
Até os dias de hoje conta-se essa história
em toda Inglaterra. A polícia nunca conseguiu explicar o acontecido, que
continua sendo um mistério. E também é um mistério as visões horrorosas que as
crianças têm toda noite de sexta-feira 13 de sombras de mãos e de uma boneca de
porcelana muito feia.
E você, leitor azarento, que pesquisou
essa história ou a encontrou por acaso, sinto lhe dizer que a Ângela nunca
deixa testemunhas... Ela não poupou um garotinho, o que acha que ela vai fazer
com você, agora que sabe de tudo? Tenho certeza que ela abrirá uma exceção
resolverá agir mesmo não sendo uma sexta-feira 13.
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