sexta-feira, 27 de julho de 2012

Após às 22:00 -Maria Clara e Maria Carolina 1ºB

Maria Clara e Maria Carolina 1ºB

Sou Larissa, tenho dezesseis anos e sou a mais velha de três filhos. Meus outros irmãos, Fernando e Fernanda (gêmeos) têm quatro anos. Meus pais já são casados há um tempão e hoje, sexta-feira, eles comemoram vinte anos de casados, então eles decidiram viajar para um final de semana romântico.

Minutos antes de eles saírem, Neide, a babá, chegou para tomar conta dos gêmeos:

-Filha, estamos saindo. Tem comida na geladeira, na dispensa e quinhentos reais para emergências na caixinha do meu quarto - disse minha mãe

-Tudo bem mãe. Você já falou isso umas vinte vezes - falei revirando os olhos

-Tudo bem Larissa - disse minha mãe fazendo uma imitação minha nada fiel - Estamos saindo, se comporte e cuide dos seus irmãos. Neide irá dormir aqui hoje e amanhã, para você não ficar sozinha.

-Ok. Tchau mamãe, divirta-se - disse dando-lhe um beijo no rosto

-Tchau Lari- despediu-se mamãe, retribuindo o beijo

Agora que eles saíram vou para o meu quarto fazer algo produtivo: assistir pela décima vez ‘’Orgulho e Preconceito’’. Estava na minha parte favorita do filme (o baile na casa de Mr. Bingley) quando Neide bateu na minha porta:

-Larissa, você está aí?

-‘’Tô’’. O que é?

- Seus irmãos querem comer pizza. Será que você poderia ligar para a ‘’Pizza Hut’’?

Fazer o quê? Já era umas 21h30min, mas mesmo assim liguei. O entregador disse que demoraria de trinta a quarenta minutos para entregar.

-Neide?-Gritei.

-Sim?-Ela gritou de volta, em algum lugar lá embaixo.

-Acabei de ligar. A pizza deve chegar dentro de 30 a 40 minutos.

-Tudo bem. Obrigada

Continuei assistir a meu filme e a campainha tocou. Ouvi Neide falando com o entregador lá embaixo e logo após a porta batendo. Não desci imediatamente, pois faltava pouco tempo para o filme acabar. Resolvi assistir.

Já nos créditos do filme, os gêmeos começaram a chorar. Passaram 5 minutos e os gêmeos ainda estavam chorando, o que era muito estranho já que Neide deveria tê-los acalmado há muito tempo. Então desliguei a TV e abri a porta do quarto. A luz do corredor estava apagada, portanto a única luz presente no corredor vinha da grande lua do céu. A luz do luar criava sombras horripilantes ao passar pelos galhos secos das árvores lá fora. A rua estava mais silenciosa do que nunca e escura também.

O único barulho que eu ouvia era o choro dos meus irmãos. Como eles ainda estavam chorando, estão fui até o topo da escada e gritei:

-NEIDE???

Nada, completo e absoluto silêncio:

-NEIDE???-gritei de novo. -Nada.

Comecei então a descer degrau por degrau, bem devagarzinho até chegar ao andar de baixo. Encontrei meus irmãos no berço, que finalmente tinham parado de chorar, mas nada de Neide. A sala, assim como o corredor, estava na escuridão, só era possível enxergar algo devido à televisão que estava ligada, porém não emitia nenhum som.

A sala onde estava não era muito grande. Ali havia um sofá, duas poltronas, a TV e o berço onde meus irmãos estavam. Decidi acender a luz que ficava na parede ao lado do berço, a poucos passos da onde eu estava. Não tinha dado nem três passos quando escorreguei e cai numa poça de líquido. De onde veio aquela água? -me rápido e acendi a luz.

O susto que levei ao perceber qual era o líquido que estava no chão e agora no meu próprio corpo, foi imenso. A sala, só agora percebi, estava impregnada com cheiro de ferrugem e maresia. O líquido vermelho rubi estava por toda parte: nas paredes, no chão, no sofá, mas a maior parte do sangue presente na sala formava um rastro em direção a cozinha. Meu inconsciente já sabia da onde saíra tanto sangue e agora eu estou sozinha nesta casa, ou melhor, meu único’’companheiro’’ era um assassino e algo me dizia que eu seria sua próxima vítima.

Tirei meus irmãos do berço e por mais incrível que pareça, eles estavam dormindo. Subi as escadas correndo, entrei no meu quarto e tranquei a porta. Preciso manter meus irmãos em segurança, e é isso que farei. Coloquei ambos na minha cama e peguei meu celular. O melhor a fazer é ligar para a polícia e esperar até que alguém apareça. Disquei 190.

-190, emergência. Diga-me o seu nome e onde mora.

-Oi, meu nome é Larissa e moro na Rua 17 de julho.

-Qual é a sua emergência?

-Uma pessoa, alguém, está na minha casa e matou...

Foi nesse momento que ouvi algo. Passos que se aproximavam lentamente.

-Rápido! Venham Rápido! Antes que ele me mate - disse apressadamente e desliguei.

Já podia escutar os passos mais próximos agora, no corredor, então corri e me escondi debaixo da cama. Cada segundo que passava equivalia a uma batida do meu coração e a espera estava me corroendo por dentro. Mesmo embaixo da cama, eu podia ver a porta. De repente, os passos cessaram e a maçaneta girou algumas vezes, mas sem sucesso.

A pessoa atrás da porta deve ter desistido, pois se passaram alguns segundos e nada aconteceu. Quanta inocência! Depois que esse pensamento atravessou minha mente, uma faca atravessou minha porta bem ao lado da maçaneta, abrindo um buraco. Não demorou muito, e uma mão masculina apareceu no buraco feito pela faca, abrindo a porta por dentro. Não gritei de desespero, pois todas as células do meu corpo estavam tremendas de medo.

A porta foi aberta lentamente e um par de botas entrou no meu campo de visão. Parece que ele sabia onde estava, porque ele parou bem na minha frente e ficou lá, parado. As nossas respirações eram as únicas coisas audíveis no quarto. Então, para o meu completo terror ele se ajoelhou e estendeu um braço. Tentando me agarrar. Ele conseguiu segurar o meu pescoço, mas não por muito tempo. Logo que sua mão, grande e calosa, seguraram o meu pescoço eu usei toda aminha força e o arranhei. Ele soltou um grito raivoso ao mesmo tempo em que tirava sua mão do meu pescoço.

Para a minha surpresa, ele se levantou. Fiquei aliviada, pois pensei que estivesse desistido. Nunca tinha reparado o quão burra eu era. É claro que ele não iria desistir e minhas suspeitas de confirmaram quando ele falou:

-Saia agora ou eu mato os seus irmãos.

Tinha me esquecido completamente dos gêmeos e não hesitei em sair debaixo da cama para salvá-los. Quando eu me levantei, pude ver o homem que me causava tamanha repulsa e ódio. Ele era um homem alto, robusto de uns trinta e poucos anos. Seus cabelos eram ondulados e seus olhos eram de uma frieza tão grande que eram capazes de paralisar pessoas, e foi exatamente o que aconteceu comigo.

Ele tinha uma faca na mão, cuja lâmina estava ensanguentada. Ele nada mais falou e foi aí que percebi que minha vida na terra chegara ao fim. Fechei os olhos e esperei. Sabe aquela história de que quando estamos próximos da nossa morte nossa vida passa diante dos nossos olhos? Pois é, é verdade.

Então, fiquei parada, tentando não pensar no futuro quando escutei o som mais maravilho do mundo: a polícia havia chegado ao meu quarto e imobilizara o agressor. Tudo que vi foi o meu quase assassino saindo algemado pelos policiais.

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