sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sexta-feira 13- As Memórias do Conde Brá-Rafael Cardoso - 1ºA

Rafael Cardoso - 1ºA


O tempo havia passado depressa nesses últimos dez anos. Enquanto olhava para o grande relógio fazendo tic-tac ao lado da lareira acesa na qual a chama azulada ofuscava meus olhos, pensava naquela fria noite em abril de 1702, há exatamente uma década, onde quase perdi a minha amada. Era uma quinta-feira, estávamos voltando ao meu castelo sobre a carruagem de luxo, porém como chovia forte e os cavalos estavam mais irritados do que de costume aquele dia, o condutor - sem meu conhecimento - estava sofrendo de uma doença infecciosa muito grave, e como ele permanecia afastado do interior da carruagem não pude verificar seu estado para conduzir em tais trajetos. Foi naquele dia chuvoso que o condutor sucumbiu a sua terrível infecção, e minha amada foi atirada para fora da carruagem em causa dos solavancos dados pela carruagem desgovernada. Quando sai ao desespero, ela já estava sem vida e com um ferimento grave na área da cabeça. Estava sem vida, e minha vida não tinha sentido... as coisas aconteceram rápido demais, era apenas um dia de chuva e eu faria qualquer coisa para tê-la de volta. Qualquer coisa.

Havia certas coisas que nunca pude explicar na minha vida, e isso foi uma delas, não tenho como explicar, apenas aconteceu. Em meio a minha necessidade de recuperar o que perdi, estávamos longe da minha mansão, porém um senhor, provavelmente um mendigo passava com uma capa preta e se aproximava da cena, e lançou a seguinte pergunta enquanto eu continuava a segurar minha falecida amada em meus braços sem reação qualquer:

- Amigo. Você parece triste, que tal nós fazermos um pequeno acordo onde eu trago a garota de volta e você apenas fica me devendo um favorzinho, coisa básica, e você só vai pagar daqui a dez anos. O que o venerável senhor acha? – O senhor da capa preta exibiu os dentes amarelados após o final da pergunta e, nessa hora, eu entendi o que dizem sobre uma pessoa desesperada fazer qualquer coisa. Eu não estava dentro de mim mesmo naquele momento, no momento que eu aceitei favores míticos de um velho estranho. Mas o que custava tentar? Afinal, eram vários livros de misticismo e objetos exotéricos que eu colecionava na minha mansão, talvez aquilo tudo tivesse algum sentido, pensei e aceitei com uma resposta quase fora de consciência. Ao tocar-lhe a testa o mago, - ou seja lá que diabos fosse aquela criatura horrenda em forma de humano - a minha amada retomou a vida. O ferimento ainda prevalecia, ela se encontrava atordoada e confusa, mas ela estava viva, e eu tinha dez anos de espera a partir dali.

Eu sabia que o tamanho do favor exigiria um pagamento caro, e quanto mais perto chegava do prazo de dez anos eu percebia que me arrependeria, mesmo com minha amada de volta o preço seria caro. Ao chegar na mansão naquela mesma noite na qual minha mulher fora ressuscitada, li inúmeros livros e nenhum deles falava a respeito de certas criaturas que fazem favores místicos... Talvez fosse algo novo e não documentado, ou talvez ninguém tivesse sobrevivido pra contar a história. Agora me encontro na terrível apreensão pessoal em luta a minha vida e hoje, faltando poucas horas para o final do prazo, mandei lacrar o castelo para essa noite, tomando todas as providências viáveis e inviáveis, fiz com que toda a mansão estivesse fortemente protegida de qualquer male humano ou do além, mandei cobrir o perímetro do castelo inteiro com objetos de proteção que consegui em várias viagens ao Oriente Médio

Soava o gongo da meia noite, era sexta feira 13 e faziam exatos dez anos do tal milagre místico. Apenas as camareiras, mordomos e minha querida amada que descansava no nosso aposento estavam presentes no castelo nesse dia.

Todos sempre me trataram com o devido respeito afinal meu posto de Conde me tornara um intocável diante da plebe, porém, em tal ocasião, todos os meus 13 funcionários presentes naquela noite entraram em marcha e sincronia no cômodo onde eu me encontrava sem meu devido consentimento me fazendo gritar de indignação:

- O que vocês fazem aqui? Saiam já. Eu não autorizei ninguém a entrar seu meu consentimento.

Fui ignorado, e meus funcionários me observavam entre camareiras e mordomos que me olhavam de um modo estranho, todos os olhos vidrados em mim. Transmitiam dor e sangue. Foi ai que eu percebi que algo deu realmente muito errado. Talvez toda aquela minha cautela que estava dedicada a impedir que algo entrasse tivesse sido em vão, talvez isso estivesse comigo o tempo todo desde aquele dia. Foi onde eu percebi que eles abriram caminho para alguém.

Era minha amada com um vestido cintilante vermelho, ou melhor, não era só o seu vestido que estava vermelho, seus olhos também. Tal coisa me causou muito espanto, enquanto tentava digerir a informação, ela disse exibindo um sorriso amargo:

- Olá Conde Brá. Já faz um tempo que não te vejo, vim lhe pedir um favor.

Nesse momento percebi que realmente não se tratava da minha amada, e sim da coisa que a trouxe de volta, assim ela continuou:

- Podem sair meus meninos, já estão dispensados.

Após a ordem todos meus funcionários caíram ao chão como se tivessem perdido todos os sentidos, talvez porque eles já estivessem mortos há muito tempo, e apenas seus corpos estivessem sendo escravizados, assim como o da minha amada sobre o tal ser. Eu não sabia o que fazer no momento, minhas pernas tremiam de um modo que eu nunca havia sentido antes. Minha cabeça girava entre o medo e o desentendimento, o terror e o cheiro da morte. Ela continuou:

- Eu tive que tomar umas providências para você não tentar me trapacear, deixe eu me apresentar. – Ela torceu os lábios em completo prazer, parecendo satisfeita com meu pânico - Eu me chamo Orsínis, sou o Deus pagão dos favores e recados, mas eu tenho um pequeno defeito, eu não gosto de caridade, não mesmo. Por isso, eu faço favores que ninguém mais poderia fazer cobrando um preço que ninguém mais poderia pagar, a não ser uma pessoa desesperada. Foi o seu caso, naquele dia eu estava na hora certa, no lugar certo. Não posso dizer o mesmo de você, pois você ficou com sua amada por dez anos, mas eu creio que está na hora de dizer adeus, pois todo favor precisa ser pago, e eu sou sedento por almas. Pois hoje eu vim recolher a sua, e não há para onde correr, afinal o castelo está trancado. Certo?

Suava frio ao ouvir as palavras, não estava acreditando que tudo estava dando errado, e eu teria que pagar o favor com o que tenho de mais precioso, minha alma. Então tudo isso foi em vão, e que eu só tive esse pequeno tempo com minha amada. Que provavelmente nem sairia viva dessa história. Pensei rápido e disse:

- Mas essa é a única forma de pagar, não há nenhum jeito de eu e minha amada sairmos livres disso, por favor.

Então o Deus na forma de uma linda mulher refestelou-se, sorriu ironicamente, e disse:

- Bom, ter uma forma tem. Na verdade é até mais vantajosa para ambos, você sai vivo, a garotinha aqui – ele apontou para as pernas da minha mulher - que eu estou usando o corpo fica viva. E ambos vivem juntos para sempre... Literalmente. Vocês irão servir a mim, serão ceifadores de almas. Coletariam almas de seus amigos, parentes e todas as pessoas que tem alguma importância. Pois quanto mais próximos, a alma da pessoa que foi recolhida fica mais forte. Ela fica para o recolhedor; mas você irá entrega - lá para mim. Quando todos os seus queridos estiverem mortos e sem almas – Ela pareceu pronunciar a palavra “mortos” com ironia e desprezo – você irá ceifar almas de pessoas desconhecidas. Normal. É como um pagamento meu para você, mas você irá devolver-me. E todos nós ficamos felizes, alguns mais que outro. O que acha?
- E por quanto tempo nós teríamos que fazer isso? – Perguntei apreensivo.

- Huuuum, deixe me ver – Ironicamente ela começou a contar nos dedos e respondeu – Só pela eternidade.

- Ok, eu aceito. - Súbitos eventos inexplicáveis pelo senso humano aconteceram naquela noite, a dor e o desespero que se progrediram a partir dali naquele ritual de macabro de imortalização não valem a pena ser descritos aqui, talvez porque tal coisa seja muito abstrata para meros humanos ignorantes.

Naquela hora eu realmente não tinha noção da besteira que tinha acabado de fazer e, mais uma vez, pensei mais no meu bem estar do que em todos os perigos; sem saber que o feitiço sempre vira contra o feiticeiro, e que favores do mal são armadilhas terríveis. Pois a partir daquele momento, eu me tornei um ceifador de almas, e cada pessoa que eu tocasse a partir daquele dia, morreria. Familiares, amigos, funcionários... Não adiantaria tentar resistir, as forças do além sempre me direcionariam para meu dever, minha obrigação, afinal eu tinha concordado em ser um recolhedor, e esse era meu dever pela eternidade.

Ganhei a imortalidade e a promessa de ficar para sempre com minha amada, mas do que adiantava se eu não poderia viver e morrer como uma pessoa normal? Afinal se a única certeza da vida é a morte, então que destino teria algo como eu e minha amada, que estávamos acorrentados a eternidade para o entretenimento de um Deus que nos vigia a cada segundo. Inúmeras vezes tentei convencer Orsínis a libertar a minha mulher dessa história toda, afirmando que eu havia feito o contrato e ela não tinha nada a ver com isso. Porém a minha maior alegria se tornou meu maior empecilho, meu casamento. No momento que me casei uns cinco anos após o acidente da carruagem. Minha amada entregou sua alma a mim ao dizer o “sim” simbólico, pelo menos eu achava que era simbólico. Quando vendi minha alma, vendi a dela junto. E nunca me perdoarei por isso.

Mas o contrato estava feito e duraria para sempre. Levou um tempo para eu aprender, que o mal, está em todo lugar, e que ele nos observa com cautela. Existem coisas no mundo que não podemos explicar, está além da sua concepção básica, coisas como eu, um Conde respeitadíssimo do século XVIII. E que agora exatamente 300 anos depois, no ano de 2012, escrevo estas memórias para você, mero mortal, pensar duas vezes antes de se entregar ao mal para mudar a linha natural das coisas. Pois ele pode estar na sua família e nos seus amigos. Pode até estar em você.


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