Rafael Cardoso - 1ºA
O tempo havia
passado depressa nesses últimos dez anos. Enquanto olhava para o grande relógio
fazendo tic-tac ao lado da lareira acesa na qual a chama azulada ofuscava meus
olhos, pensava naquela fria noite em abril de 1702, há exatamente uma década,
onde quase perdi a minha amada. Era uma quinta-feira, estávamos voltando ao meu
castelo sobre a carruagem de luxo, porém como chovia forte e os cavalos estavam
mais irritados do que de costume aquele dia, o condutor - sem meu conhecimento
- estava sofrendo de uma doença infecciosa muito grave, e como ele permanecia
afastado do interior da carruagem não pude verificar seu estado para conduzir
em tais trajetos. Foi naquele dia chuvoso que o condutor sucumbiu a sua
terrível infecção, e minha amada foi atirada para fora da carruagem em causa
dos solavancos dados pela carruagem desgovernada. Quando sai ao desespero, ela
já estava sem vida e com um ferimento grave na área da cabeça. Estava sem vida,
e minha vida não tinha sentido... as coisas aconteceram rápido demais, era
apenas um dia de chuva e eu faria qualquer coisa para tê-la de volta. Qualquer
coisa.
Havia certas
coisas que nunca pude explicar na minha vida, e isso foi uma delas, não tenho
como explicar, apenas aconteceu. Em meio a minha necessidade de recuperar o que
perdi, estávamos longe da minha mansão, porém um senhor, provavelmente um
mendigo passava com uma capa preta e se aproximava da cena, e lançou a seguinte
pergunta enquanto eu continuava a segurar minha falecida amada em meus braços
sem reação qualquer:
- Amigo. Você
parece triste, que tal nós fazermos um pequeno acordo onde eu trago a garota de
volta e você apenas fica me devendo um favorzinho, coisa básica, e você só vai
pagar daqui a dez anos. O que o venerável senhor acha? – O senhor da capa preta
exibiu os dentes amarelados após o final da pergunta e, nessa hora, eu entendi
o que dizem sobre uma pessoa desesperada fazer qualquer coisa. Eu não estava
dentro de mim mesmo naquele momento, no momento que eu aceitei favores míticos
de um velho estranho. Mas o que custava tentar? Afinal, eram vários livros de
misticismo e objetos exotéricos que eu colecionava na minha mansão, talvez
aquilo tudo tivesse algum sentido, pensei e aceitei com uma resposta quase fora
de consciência. Ao tocar-lhe a testa o mago, - ou seja lá que diabos fosse aquela
criatura horrenda em forma de humano - a minha amada retomou a vida. O
ferimento ainda prevalecia, ela se encontrava atordoada e confusa, mas ela
estava viva, e eu tinha dez anos de espera a partir dali.
Eu sabia que o
tamanho do favor exigiria um pagamento caro, e quanto mais perto chegava do
prazo de dez anos eu percebia que me arrependeria, mesmo com minha amada de
volta o preço seria caro. Ao chegar na mansão naquela mesma noite na qual minha
mulher fora ressuscitada, li inúmeros livros e nenhum deles falava a respeito
de certas criaturas que fazem favores místicos... Talvez fosse algo novo e não
documentado, ou talvez ninguém tivesse sobrevivido pra contar a história. Agora
me encontro na terrível apreensão pessoal em luta a minha vida e hoje, faltando
poucas horas para o final do prazo, mandei lacrar o castelo para essa noite, tomando
todas as providências viáveis e inviáveis, fiz com que toda a mansão estivesse
fortemente protegida de qualquer male humano ou do além, mandei cobrir o
perímetro do castelo inteiro com objetos de proteção que consegui em várias
viagens ao Oriente Médio
Soava o gongo da
meia noite, era sexta feira 13 e faziam exatos dez anos do tal milagre místico.
Apenas as camareiras, mordomos e minha querida amada que descansava no nosso
aposento estavam presentes no castelo nesse dia.
Todos sempre me
trataram com o devido respeito afinal meu posto de Conde me tornara um
intocável diante da plebe, porém, em tal ocasião, todos os meus 13 funcionários
presentes naquela noite entraram em marcha e sincronia no cômodo onde eu me
encontrava sem meu devido consentimento me fazendo gritar de indignação:
- O que vocês
fazem aqui? Saiam já. Eu não autorizei ninguém a entrar seu meu consentimento.
Fui ignorado, e
meus funcionários me observavam entre camareiras e mordomos que me olhavam de
um modo estranho, todos os olhos vidrados em mim. Transmitiam dor e sangue. Foi
ai que eu percebi que algo deu realmente muito errado. Talvez toda aquela minha
cautela que estava dedicada a impedir que algo entrasse tivesse sido em vão,
talvez isso estivesse comigo o tempo todo desde aquele dia. Foi onde eu percebi
que eles abriram caminho para alguém.
Era minha amada
com um vestido cintilante vermelho, ou melhor, não era só o seu vestido que
estava vermelho, seus olhos também. Tal coisa me causou muito espanto, enquanto
tentava digerir a informação, ela disse exibindo um sorriso amargo:
- Olá Conde Brá.
Já faz um tempo que não te vejo, vim lhe pedir um favor.
Nesse momento
percebi que realmente não se tratava da minha amada, e sim da coisa que a
trouxe de volta, assim ela continuou:
- Podem sair
meus meninos, já estão dispensados.
Após a ordem
todos meus funcionários caíram ao chão como se tivessem perdido todos os
sentidos, talvez porque eles já estivessem mortos há muito tempo, e apenas seus
corpos estivessem sendo escravizados, assim como o da minha amada sobre o tal
ser. Eu não sabia o que fazer no momento, minhas pernas tremiam de um modo que
eu nunca havia sentido antes. Minha cabeça girava entre o medo e o desentendimento,
o terror e o cheiro da morte. Ela continuou:
- Eu tive que
tomar umas providências para você não tentar me trapacear, deixe eu me
apresentar. – Ela torceu os lábios em completo prazer, parecendo satisfeita com
meu pânico - Eu me chamo Orsínis, sou o Deus pagão dos favores e recados, mas
eu tenho um pequeno defeito, eu não gosto de caridade, não mesmo. Por isso, eu
faço favores que ninguém mais poderia fazer cobrando um preço que ninguém mais
poderia pagar, a não ser uma pessoa desesperada. Foi o seu caso, naquele dia eu
estava na hora certa, no lugar certo. Não posso dizer o mesmo de você, pois
você ficou com sua amada por dez anos, mas eu creio que está na hora de dizer
adeus, pois todo favor precisa ser pago, e eu sou sedento por almas. Pois hoje
eu vim recolher a sua, e não há para onde correr, afinal o castelo está
trancado. Certo?
Suava frio ao
ouvir as palavras, não estava acreditando que tudo estava dando errado, e eu
teria que pagar o favor com o que tenho de mais precioso, minha alma. Então
tudo isso foi em vão, e que eu só tive esse pequeno tempo com minha amada. Que
provavelmente nem sairia viva dessa história. Pensei rápido e disse:
- Mas essa é a
única forma de pagar, não há nenhum jeito de eu e minha amada sairmos livres
disso, por favor.
Então o Deus na
forma de uma linda mulher refestelou-se, sorriu ironicamente, e disse:
- Bom, ter uma
forma tem. Na verdade é até mais vantajosa para ambos, você sai vivo, a
garotinha aqui – ele apontou para as pernas da minha mulher - que eu estou
usando o corpo fica viva. E ambos vivem juntos para sempre... Literalmente.
Vocês irão servir a mim, serão ceifadores de almas. Coletariam almas de seus
amigos, parentes e todas as pessoas que tem alguma importância. Pois quanto
mais próximos, a alma da pessoa que foi recolhida fica mais forte. Ela fica
para o recolhedor; mas você irá entrega - lá para mim. Quando todos os seus
queridos estiverem mortos e sem almas – Ela pareceu pronunciar a palavra
“mortos” com ironia e desprezo – você irá ceifar almas de pessoas
desconhecidas. Normal. É como um pagamento meu para você, mas você irá
devolver-me. E todos nós ficamos felizes, alguns mais que outro. O que acha?
- E por quanto tempo nós teríamos que fazer isso? – Perguntei apreensivo.
- E por quanto tempo nós teríamos que fazer isso? – Perguntei apreensivo.
- Huuuum, deixe
me ver – Ironicamente ela começou a contar nos dedos e respondeu – Só pela
eternidade.
- Ok, eu aceito.
- Súbitos eventos inexplicáveis pelo senso humano aconteceram naquela noite, a
dor e o desespero que se progrediram a partir dali naquele ritual de macabro de
imortalização não valem a pena ser descritos aqui, talvez porque tal coisa seja
muito abstrata para meros humanos ignorantes.
Naquela hora eu
realmente não tinha noção da besteira que tinha acabado de fazer e, mais uma
vez, pensei mais no meu bem estar do que em todos os perigos; sem saber que o
feitiço sempre vira contra o feiticeiro, e que favores do mal são armadilhas
terríveis. Pois a partir daquele momento, eu me tornei um ceifador de almas, e
cada pessoa que eu tocasse a partir daquele dia, morreria. Familiares, amigos,
funcionários... Não adiantaria tentar resistir, as forças do além sempre me
direcionariam para meu dever, minha obrigação, afinal eu tinha concordado em
ser um recolhedor, e esse era meu dever pela eternidade.
Ganhei a
imortalidade e a promessa de ficar para sempre com minha amada, mas do que
adiantava se eu não poderia viver e morrer como uma pessoa normal? Afinal se a
única certeza da vida é a morte, então que destino teria algo como eu e minha
amada, que estávamos acorrentados a eternidade para o entretenimento de um Deus
que nos vigia a cada segundo. Inúmeras vezes tentei convencer Orsínis a
libertar a minha mulher dessa história toda, afirmando que eu havia feito o
contrato e ela não tinha nada a ver com isso. Porém a minha maior alegria se
tornou meu maior empecilho, meu casamento. No momento que me casei uns cinco
anos após o acidente da carruagem. Minha amada entregou sua alma a mim ao dizer
o “sim” simbólico, pelo menos eu achava que era simbólico. Quando vendi minha
alma, vendi a dela junto. E nunca me perdoarei por isso.
Mas o contrato
estava feito e duraria para sempre. Levou um tempo para eu aprender, que o mal,
está em todo lugar, e que ele nos observa com cautela. Existem coisas no mundo
que não podemos explicar, está além da sua concepção básica, coisas como eu, um
Conde respeitadíssimo do século XVIII. E que agora exatamente 300 anos depois,
no ano de 2012, escrevo estas memórias para você, mero mortal, pensar duas
vezes antes de se entregar ao mal para mudar a linha natural das coisas. Pois
ele pode estar na sua família e nos seus amigos. Pode até estar em você.
ADORO
ResponderExcluirISSO
MANO
LOVIN'