sexta-feira, 27 de julho de 2012

O mistério da mansão.- Mallu Marinho - 1ºD

Mallu Marinho - 1ºD

Era normal encontrar minha família daquela forma nas noites de sábado: meu pai assistindo TV no canal esportivo, minha mãe na cozinha terminando de limpar o que havia ficado sujo do jantar, meu irmão no quarto lendo histórias em quadrinhos e eu no primeiro degrau da escada em relação ao térreo.

Moramos em uma casa afastada das outras. Por conta disso, não temos problemas com vizinhança e as redondezas são um tanto silenciosas. A nossa casa é simplesmente linda! É uma antiga mansão estilo vitoriana construída em 1886 por uma família de médicos, que segundo boatos que circulavam no vilarejo, haviam sido brutalmente assassinados. Talvez por isso a casa ficara desocupada por tantos anos já que todos tinham medo de comprá-la.

Mas, meus pais sempre foram apaixonados por coisas antigas. E quando viram o anúncio de venda, não pensaram duas vezes antes de comprar. Para quem não sabe, os moradores daquela época eram ricos e queriam que a aparência das suas moradas deixasse bem claro esse detalhe monetário. Por isso, as casas vitorianas abusam da assimetria e dos detalhes: têm muitas varandas, muitas janelas e múltiplas entradas.

Nossa família é pequena para uma casa tão grande, eu confesso. Somos quatro: minha mãe Lucy, de 38 anos; meu pai John, de 41 anos; meu irmão caçula Matthew, de 12 anos e eu, Annelise de 16 anos. Somos bem unidos e vivemos em harmonia. Óbvio que o mesmo não se aplica ao meu irmão. Vivemos brigando pelo mais simples motivo.

O livro que eu tinha em mãos eu havia pegado na biblioteca no dia anterior e já estava quase acabando. “O morro dos ventos uivantes” era um título bastante sugestivo e a história era fantástica. Um vento forte e frio adentrou pela janela fazendo as páginas do livro que eu lia folhearem rapidamente.

Deixei meu livro no degrau e me levantei para ir fechar a janela. Mas, aconteceu tudo muito rápido: uma chuva forte começou a cair e as gotas pareciam tão grossas que tive medo de que derrubassem o telhado. Era chuva, muita chuva! As luzes piscaram duas vezes antes de se apagarem. E um grito assustador ecoou do andar de cima. O grito do meu irmão.

Mamãe preocupada com a iluminação foi a procura de uma vela ou lanterna com papai, gritando para eu ir ver o meu irmão que tinha medo de escuro e que estava sozinho. Acendi a lanterna do celular e subi contra vontade, pisando forte. Ele já era grandinho o suficiente para aqueles medos bobos e seria até divertido zoar da cara dele enquanto ele chorava.

Há um corredor longo com quatro portas. Duas do lado direito e duas do lado esquerdo. A primeira do lado esquerdo é a entrada para o quarto dos meus pais, a segunda é o escritório. Do lado direito, a primeira porta é a do meu quarto e a segunda do quarto de Matthew.

Abri a porta do quarto e apontei a lanterna para o interior do recinto. Não foi preciso observar muito para perceber que havia algo muito errado. Matthew não estava mais ali e as janelas estavam completamente abertas, logo, devido à chuva que caia do lado de fora, o quarto estava bastante molhado.

Confesso que fiquei com bastante medo e um arrepio tomou conta do meu corpo. Decidi por não fazer alarde, até porque eu estava em um estado de não ter reação. Caminhei até a janela e olhei para baixo. Nenhum sinal de ninguém, porém deslizando pelo parapeito da janela junto com as gotas de água, havia vestígios de sangue.

E foi então que as luzes do quarto piscaram várias vezes e algo chamou minha atenção. Na parede uma mensagem havia sido grafada com sangue e dizia o seguinte: “Ele foi o primeiro. Seus pais serão os próximos e você a última.” Com a mão abafei um grito.

Meu coração parecia que ia sair do peito, eu mal conseguia respirar e minhas mãos estavam geladas e trêmulas. Eu estava tão nervosa que não sei como percebi que no chão havia um bilhete feito com recortes de jornais e revistas.

“O maior erro das pessoas é não acreditar que espíritos existem e que há casas mal assombradas.” Era tudo o que dizia, mas foi o suficiente pra me fazer correr para a saída do quarto e descer as escadas quase tropeçando nos meus próprios pés.

No desespero, deixei o celular cair no chão e a lanterna se apagou. O que me consolou foi ver na penumbra, que uma vela havia sido acesa na cozinha. Mesmo na escuridão, consegui chegar até o outro cômodo sem me esbarrar em nada.

— Mãe? Pai? – Chamei, mas não obtive resposta.

Sobre a mesa, peguei o castiçal de velas que havia sido deixado e ergui. Quase caí para trás com os rastros de sangue que haviam da cozinha até a porta que dava em direção ao jardim dos fundos. Na parede, mais um recado deixado: “Pra quê se preocupar com a morte? Deveria se preocupar com a forma que vai morrer. Se arrisque, siga os rastros.”

Meu coração palpitou. Eu tinha certeza de que seria morta... Eu tinha certeza de que toda minha família havia sido morta. E o pior é que a história nem fazia sentido. Engoli em seco, mas decidi seguir em frente.

No jardim dos fundos ficava um quartinho que era usado como dispensa. Mesmo com a forte chuva, era possível ver pelos rastros na lama que corpos haviam sido arrastados naquela direção. Meu coração estava gelado, quando me deparei na frente da porta, respirei fundo e girei a maçaneta que fez um som característico que mostrava que estava destrancada.

O castiçal havia se apagado na chuva, mas assim que adentrei no pequeno espaço que ficava repleto de tralhas, a energia pareceu voltar instantaneamente e a luz ali dentro se acendeu.

Tudo havia desaparecido. Não havia mais rastro de sangue, nem nada. Meu coração batia tão forte que era possível eu escutá-lo. Eu já ia sair quando, ao dar as costas, pensei ter visto um vulto dentro da dispensa. Virei-me para olhar de novo e fui surpreendida ao sentir uma mão tapar minha boca o que abafou um alto grito que estava em minha garganta.

A única coisa errada nisso tudo é que eu estava contra a luz, dentro da dispensa, e enquanto a minha sombra aparecia na parede, a de quem supostamente me atacava era completamente invisível. Eu não podia acreditar: era um espírito!

— Não tem para onde correr... A maldição só será quebrada quando todos os atuais moradores estiverem mortos e serem enterrados aqui mesmo. Só assim eu e minha mulher seremos libertados...

Só então ele permitiu que eu me virasse e fiquei tão atordoada que nem tive reação. Ele tinha a pele enrugada, provavelmente por causa de grandes queimaduras e era uma aparência assustadora. Estava vestido de branco e com um jaleco. Atrás dele, do lado de fora, pude ver que uma mulher vestida do modo e com feições tão horrendas como a dele nos observava.

— Como... Como assim? – Minha voz falhou. Eu definitivamente não sabia mais o que fazer.

— Há uma maldição... Quando fomos assassinados e enterrados no jardim, nosso espírito ficou preso a casa porque o terreno dessa casa era um cemitério antes. E só seremos livres se matarmos você agora que o resto de sua família está morta.

Depois de escutar aquilo e assimilar tudo o que estava acontecendo com os boatos que corriam pela cidade, meu último pensamento foi de que eles deveriam ter sido o casal de médicos donos originais da casa e assassinados. E depois disso, apenas a escuridão.

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