Mallu Marinho - 1ºD
Era normal
encontrar minha família daquela forma nas noites de sábado: meu pai assistindo
TV no canal esportivo, minha mãe na cozinha terminando de limpar o que havia
ficado sujo do jantar, meu irmão no quarto lendo histórias em quadrinhos e eu
no primeiro degrau da escada em relação ao térreo.
Moramos em uma
casa afastada das outras. Por conta disso, não temos problemas com vizinhança e
as redondezas são um tanto silenciosas. A nossa casa é simplesmente linda! É
uma antiga mansão estilo vitoriana construída em 1886 por uma família de
médicos, que segundo boatos que circulavam no vilarejo, haviam sido brutalmente
assassinados. Talvez por isso a casa ficara desocupada por tantos anos já que
todos tinham medo de comprá-la.
Mas, meus pais
sempre foram apaixonados por coisas antigas. E quando viram o anúncio de venda,
não pensaram duas vezes antes de comprar. Para quem não sabe, os moradores daquela
época eram ricos e queriam que a aparência das suas moradas deixasse bem claro
esse detalhe monetário. Por isso, as casas vitorianas abusam da assimetria e
dos detalhes: têm muitas varandas, muitas janelas e múltiplas entradas.
Nossa família é
pequena para uma casa tão grande, eu confesso. Somos quatro: minha mãe Lucy, de
38 anos; meu pai John, de 41 anos; meu irmão caçula Matthew, de 12 anos e eu,
Annelise de 16 anos. Somos bem unidos e vivemos em harmonia. Óbvio que o mesmo
não se aplica ao meu irmão. Vivemos brigando pelo mais simples motivo.
O livro que eu
tinha em mãos eu havia pegado na biblioteca no dia anterior e já estava quase
acabando. “O morro dos ventos uivantes” era um título bastante sugestivo e a
história era fantástica. Um vento forte e frio adentrou pela janela fazendo as
páginas do livro que eu lia folhearem rapidamente.
Deixei meu livro
no degrau e me levantei para ir fechar a janela. Mas, aconteceu tudo muito
rápido: uma chuva forte começou a cair e as gotas pareciam tão grossas que tive
medo de que derrubassem o telhado. Era chuva, muita chuva! As luzes piscaram
duas vezes antes de se apagarem. E um grito assustador ecoou do andar de cima.
O grito do meu irmão.
Mamãe preocupada
com a iluminação foi a procura de uma vela ou lanterna com papai, gritando para
eu ir ver o meu irmão que tinha medo de escuro e que estava sozinho. Acendi a
lanterna do celular e subi contra vontade, pisando forte. Ele já era grandinho
o suficiente para aqueles medos bobos e seria até divertido zoar da cara dele
enquanto ele chorava.
Há um corredor
longo com quatro portas. Duas do lado direito e duas do lado esquerdo. A
primeira do lado esquerdo é a entrada para o quarto dos meus pais, a segunda é
o escritório. Do lado direito, a primeira porta é a do meu quarto e a segunda
do quarto de Matthew.
Abri a porta do
quarto e apontei a lanterna para o interior do recinto. Não foi preciso
observar muito para perceber que havia algo muito errado. Matthew não estava
mais ali e as janelas estavam completamente abertas, logo, devido à chuva que
caia do lado de fora, o quarto estava bastante molhado.
Confesso que fiquei
com bastante medo e um arrepio tomou conta do meu corpo. Decidi por não fazer
alarde, até porque eu estava em um estado de não ter reação. Caminhei até a
janela e olhei para baixo. Nenhum sinal de ninguém, porém deslizando pelo
parapeito da janela junto com as gotas de água, havia vestígios de sangue.
E foi então que
as luzes do quarto piscaram várias vezes e algo chamou minha atenção. Na parede
uma mensagem havia sido grafada com sangue e dizia o seguinte: “Ele foi o
primeiro. Seus pais serão os próximos e você a última.” Com a mão abafei um
grito.
Meu coração
parecia que ia sair do peito, eu mal conseguia respirar e minhas mãos estavam
geladas e trêmulas. Eu estava tão nervosa que não sei como percebi que no chão
havia um bilhete feito com recortes de jornais e revistas.
“O maior erro
das pessoas é não acreditar que espíritos existem e que há casas mal
assombradas.” Era tudo o que dizia, mas foi o suficiente pra me fazer correr
para a saída do quarto e descer as escadas quase tropeçando nos meus próprios
pés.
No desespero,
deixei o celular cair no chão e a lanterna se apagou. O que me consolou foi ver
na penumbra, que uma vela havia sido acesa na cozinha. Mesmo na escuridão,
consegui chegar até o outro cômodo sem me esbarrar em nada.
— Mãe? Pai? –
Chamei, mas não obtive resposta.
Sobre a mesa,
peguei o castiçal de velas que havia sido deixado e ergui. Quase caí para trás
com os rastros de sangue que haviam da cozinha até a porta que dava em direção
ao jardim dos fundos. Na parede, mais um recado deixado: “Pra quê se preocupar
com a morte? Deveria se preocupar com a forma que vai morrer. Se arrisque, siga
os rastros.”
Meu coração
palpitou. Eu tinha certeza de que seria morta... Eu tinha certeza de que toda
minha família havia sido morta. E o pior é que a história nem fazia sentido.
Engoli em seco, mas decidi seguir em frente.
No jardim dos
fundos ficava um quartinho que era usado como dispensa. Mesmo com a forte
chuva, era possível ver pelos rastros na lama que corpos haviam sido arrastados
naquela direção. Meu coração estava gelado, quando me deparei na frente da
porta, respirei fundo e girei a maçaneta que fez um som característico que
mostrava que estava destrancada.
O castiçal havia
se apagado na chuva, mas assim que adentrei no pequeno espaço que ficava
repleto de tralhas, a energia pareceu voltar instantaneamente e a luz ali
dentro se acendeu.
Tudo havia
desaparecido. Não havia mais rastro de sangue, nem nada. Meu coração batia tão
forte que era possível eu escutá-lo. Eu já ia sair quando, ao dar as costas, pensei
ter visto um vulto dentro da dispensa. Virei-me para olhar de novo e fui
surpreendida ao sentir uma mão tapar minha boca o que abafou um alto grito que
estava em minha garganta.
A única coisa
errada nisso tudo é que eu estava contra a luz, dentro da dispensa, e enquanto
a minha sombra aparecia na parede, a de quem supostamente me atacava era
completamente invisível. Eu não podia acreditar: era um espírito!
— Não tem para
onde correr... A maldição só será quebrada quando todos os atuais moradores
estiverem mortos e serem enterrados aqui mesmo. Só assim eu e minha mulher
seremos libertados...
Só então ele
permitiu que eu me virasse e fiquei tão atordoada que nem tive reação. Ele
tinha a pele enrugada, provavelmente por causa de grandes queimaduras e era uma
aparência assustadora. Estava vestido de branco e com um jaleco. Atrás dele, do
lado de fora, pude ver que uma mulher vestida do modo e com feições tão
horrendas como a dele nos observava.
— Como... Como
assim? – Minha voz falhou. Eu definitivamente não sabia mais o que fazer.
— Há uma
maldição... Quando fomos assassinados e enterrados no jardim, nosso espírito
ficou preso a casa porque o terreno dessa casa era um cemitério antes. E só
seremos livres se matarmos você agora que o resto de sua família está morta.
Depois de
escutar aquilo e assimilar tudo o que estava acontecendo com os boatos que
corriam pela cidade, meu último pensamento foi de que eles deveriam ter sido o
casal de médicos donos originais da casa e assassinados. E depois disso, apenas
a escuridão.
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