Stallen Menezes e Beatriz Barbosa 1ºA
sexta-feira, 27 de julho de 2012
O Terceiro Sorriso-Stallen Menezes e Beatriz Barbosa 1ºA
Era
13 de Agosto de 1986, uma noite bonita de sexta-feira, apesar do vento gelado
que fazia os cabelos das pessoas que se atreviam a sair na rua dançarem
freneticamente. Eu havia me mudado para Salem havia 2 meses e confesso que ao
descobrir das histórias sobre as Bruxas de Salem e todas as outros superstições
dos pacatos moradores, estava esperando por essa data com uma certa animação.
Éramos eu, Marion e Elliot, que eram irmãos e meus melhores amigos desde que
cheguei á cidade. Elliot era completamente indiferente á qualquer tipo de
contos de Bruxas, já Marion ficava de cabelos em pé e olhos arregalados com um
simples assobiar do vento:
- Ora, vamos fazer alguma
coisa! É sexta-feira treze! Bruxas como as fênix renascendo de suas próprias
cinzas e vindo nos fazer uma visitinha...ou o que quer que aconteça nessa bosta
de cidade... vamos sair! –
Disse Elliot
encorajado, arrumando sua jaqueta de couro marrom no corpo e afastando seu
cabelo suado da testa.
- Não! Olha, vamos ficar
aqui... lá fora está gelado e eu tenho o campeonato do colégio na semana que
vem! Não posso ficar doente! –
Antes que eu pudesse
protestar junto á menina, Elliot soltou uma gargalhada forçada e esfregou a mão
na cabeça da irmã:
- Está com medinho Marion?
Ora, esse campeonato ainda vai demorar, anda... vamos, pessoal!
Saímos então em direção á
casa abandonada que ficava no fim da nossa rua. Era uma casa de madeira, e
havia indícios de incêndio no seu exterior, mas dentro não passava de uma loja
temática de doces de halloween que existiu nos anos 60. Entramos graças ao
vidro quebrado que dava em direção á maçaneta da porta e exploramos o local
(pela milésima vez). Era fácil perceber que alguém havia passado pro ali antes
de nós. O local não estava empoeirado como de costume e ninguém se lembrava de
uma loja dos anos 60 abrigar um tênis azul da Nike tão moderno. Posso dizer que
vasculhamos a loja inteira, faltando apenas vira-la ao avesso e, finalmente,
Marion gritou no andar de cima:
- Ei, meninos! Olha o que
eu achei! –
Mary sacudia em suas mãos
um tabuleiro de madeira clara com uma grande mancha cor de rosa em seu centro,
o que não me impediu de ver as letras e os números.
- Parabéns, Marion, você
achou um tabuleiro Ouija. Alguém está afim de falar com os mortos hoje? –
Elliot sorriu de orelha á
orelha, um sorriso amarelo e assustador, logo fazendo sinal para a irmã descer.
Colocamos o tabuleiro no chão e nos entreolhamos, o que me fez gelar do dedão
do pé até a orelha. Aquela mancha de perto era vermelha demais para ser suco de
groselha. Elliot puxou uma espécie de ponta de flecha que havia dentro da caixa
de madeira e posicionou sobre seu centro dizendo para nós colocarmos as mãos
sobre a mesma como ele estava fazendo. Pude ver o terror no olhar de Marion,
mas confesso que eu estava curioso para saber onde aquilo iria dar e obedeci. O
lugar era iluminado apenas por algumas velas que acendemos assim que chegamos e
pelo luar. Elliot fechou os olhos e respirou fundo, pedindo para que nós não
tirássemos a mão da flecha de maneira nenhuma e logo iniciando um breve e claro
pai nosso. Assim que terminamos, ele voltou a abri-los, olhando com serenidade
para o tabuleiro:
- Se existe algum espírito
aqui que queira se comunicar conosco, não sinta medo! Somos caras legais! Como
você se chama? –
Por um momento nada
aconteceu. Marion segurou o riso, o que eu não condenei, visto que Elliot
parecia extremamente bobo fazendo aquelas perguntas. Até que a flecha começou a
andar. Marion arregalou os olhos e deixou escapar um gritinho, e seu irmão,
apesar de parecer assustado, ainda deixava escapar um olhar de orgulho:
- Elliot, isso não é
brincadeira... pare de mexer isso! –
Implorei.
- Eu não estou mexendo
nada, eu juro! –
- Nem eu... Elliot, vamos
parar com isso, eu estou com medo! Por favor! –
- Não, Marion, não se pode
sair assim do nada! Se algum de nós sair sem a permissão de quem quer que seja,
algo terrível pode acontecer com todos nós! –
Minha espinha congelou e eu
engoli em seco, ficando sem saber o que falar. Pelo visto, o mesmo acontecera á
Marion, que apesar de calada, deixou escapar uma lágrima.
- Como você se chama? –
A flecha começou a
percorrer as letras do tabuleiro. Fiz um esforço para prestar atenção e logo
foi formado o nome Christopher.
- Olha, acho que temos um
amigo! O que houve com você, Christopher? –
Novamente a flecha
percorreu o tabuleiro com a resposta do tal fantasma Christopher: “não me
lembro”. Novamente, nos entreolhamos e Elliot continuava empolgado, o que mais
ainda me fazia crer que ele estava a fazer toda aquela palhaçada.
- Escute, Christopher...
por que atendeu ao nosso chamado? –
Dessa vez a resposta
demorou á vir. Marion estava vermelha e a quantidade de lágrimas em seu rosto
havia aumentado pelo menos cinco vezes, mas ela não se atrevia a falar nada.
Finalmente, a resposta veio: “Quero me divertir com vocês”
-
Elliot, por favor... –
-
Ah, fique quieta Marion! A diversão só está começando, amigão! E como você
pretende se divertir conosco, hein? Seu merdinha! Você não pode fazer nada
conosco... não passa de um fantasma!
- ELLIOT! – Gritei, já nervoso. O
gritou pulou de minha garganta inevitavelmente. Já era tarde. O vento dentro da
loja de doces havia aumentado o suficiente para apagar a vela. A única fonte de
luz que sobrara vinha da lua. Comecei a me sentir estranho, um tanto nauseado.
Marion tirou as mãos do tabuleiro e abraçou os joelhos, escondendo seu rosto
sobre os braços e chorando alto. Elliot ficou sério e arregalou os olhos. Era
fácil perceber que começara a ficar ofegante.
- Esqueçam essa merda de jogo, vamos sair
daqui! – Disse desesperado largando tudo para trás (inclusive eu e Marion). Em
seguida, saí da casa correndo com a menina, pronto á alcançar Elliot. Fomos
todos para casa, e aquela noite havia finalmente acabado, ou pelo menos, foi
isso que eu pensei.
Cheguei
em casa clamando por um banho, subindo as escadas rapidamente em direção ao banheiro.
Liguei a torneira da banheira e tirei minhas roupas. Enquanto esperava a
banheira encher, fiquei observando meu rosto no espelho. Estava ligeiramente
empoeirado da loja de doces e meu cabelo caia sobre a testa, suado e brilhoso.
De repente, meu reflexo sorriu. Sim, meu reflexo. Eu estava completamente
ciente de que não havia sorrido em momento algum. Meus olhos se arregalaram, e
os do reflexo também, mas ele continuava sorrindo. Aquilo era pavoroso. Botei
as mãos sobre meus olhos e voltei a olhar para o espelho. Meu reflexo voltara
ao normal novamente.
Entrei na banheira que estava quente e aconchegante
e procurei relaxar. Assim que terminei o banho, fui em direção ao meu quarto,
pronto para uma noite de descanso. Meu quarto era pequeno, havia espaço somente
para minha cama de solteiro, minha guitarra, uma mesa com minha vitrola e acima
dela estava pendurado um quadro de cortiça com fotos minhas e apenas uma com
meus amigos, Elliot e Marion. Elliot não costumava sorrir nas fotos, mas a
única foto que havia lá, ele estava sorrindo. Cambaleei para trás, caindo com
um baque em cima da cama. Meus olhos se arregalaram de novo. Eu lembrava
perfeitamente de que, logo após tirar aquela foto, minha mãe dera um cascudo em
Elliot porque ele não sorriu para ela. Eu peguei a foto com as mãos doloridas e
trêmulas, e a guardei na gaveta da mesa. Naquela noite, não ousei apagar a luz.
No dia seguinte, minha mãe recebeu um telefonema da
mãe de Elliot, que perguntava se havíamos saído ontem a noite. Elliot estava
com um princípio de gripe, que parecia muito grave. Eu tentei me distrair,
ligando a TV no Salem 14, que passava as notícias locais, e assim que liguei, a
notícia de um acidente com 3 adolescentes na rua próxima a casa de doces temáticos
dos anos 60, sendo o único morto Christopher Ferris, que curiosamente, foi
encontrado sem um dos sapatos e sorrindo.
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