sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A alma que vaga- Melina Souza 1ºB

Melina Souza


          Acabo de chegar de uma visita que fiz a minha mãe, podia jurar que seu tumulo estava com tulipas vermelhas, (as prediletas dela) quando olhei de relance, mais quando olhei de novo já não estavam mais por lá. Isso pode ser consequência do desgaste que tenho sofrido com a correria que venho enfrentando ultimamente. Minha mãe havia desenvolvido certo câncer pulmonar devido aos frequentes maços de cigarro que fumava constantemente. Porem quando cheguei em casa, tive a impressão de ter visto as mesmas tulipas vermelhas em cima de uma mesinha de centro que ficava na sala de visitas. Fui tentar pega-las, mais quando estava chegando bem perto, a campainha toca, e eu vou atender.

- Tia... chegou tarde, pensei que não viria mais fazer companhia à mim.

- Que é isso querida?! Como eu iria deixar de vir aqui em um momento tão delicado para nossa família?

- Vamos... não acredito que tenho que mandar a senhora entrar?!

          Minha tia Bruna não parecia se preocupar tanto assim com a morte da minha mãe, mais parecia se importar comigo. Ela entrou, sentou-se, e quando dei por mim e olhei novamente para a mesinha de centro, as tulipas já não estavam mais lá. Admito, fiquei um pouquinho assustada com aquelas flores, já era a segunda vez que eu as via.

- Duda, você já comeu alguma coisa menina?

- Não tia, estou sem fome.

- Você não pode ir para a faculdade amanhã sem ter jantado nada... Espera um pouco, vou fazer algo para comermos.

          Enquanto minha tia se dirigiu até a cozinha, eu fui tomar banho, estava meio incomodada com o cheiro que havia se estabelecido em minha roupa quando cheguei do cemitério. Ao sair do banho, fui até meu quarto e encima da minha cama estava o meu pijama predileto, um de estampa de vaquinha, com capuz, e orelhas nele. Pensei que tivesse sido a tia Bruna que tinha posto o pijama lá, então fui pergunta-la.

- Tia Bruna ...

- Oi Duda, que pijaminha lindo, não sabia que tinha esse (risos) uma gracinha!

          Fiquei meio indagada com aquilo, eu não havia posto ele ali, minha tinha não sabia se quer de sua existência; tudo bem, estava atordoada de mais para ficar me questionando quem havia colocado o pijama na minha cama.

          Comemos, eu e minha tia, sem muita conversa, ela parecia querer me deixar descansada. As vezes sentia uma pontinha de preocupação em seus olhares para mim; porem achei natural, ela deveria estar realmente preocupada, sua irmã mais velha acabará de morrer e havia me deixado só, uma “garota” de 23 anos cursando medicina. Talvez sua preocupação fosse mais com os gastos que teria comigo do que com os meus sentimentos, e o vazio deixado por minha mãe em meu peito.

          Depois de tudo, fomos dormir, eu fiquei no quarto da minha mãe, enquanto minha tinha foi dormir no meu quarto. Quando deitava na cama da minha mãe, sei lá, me sentia mais protegida, sentia sua presença ainda sobre mim, como se ela estivesse ali, comigo, o tempo todo. Quando estava quase desabando em sono, com minhas pálpebras quase grudadas uma na outra, senti uma leve pressão gelada em meu rosto, como um beijo... Porem estava cansada de mais para abrir os olhos e ver oque estava acontecendo. 

          Naquela mesma noite ao dormir, tive alguns sonhos, como lembranças antigas: Havia um pequeno bebê, e uma mulher loira muito bonita a balançar seu bercinho. Então de repente um cara aparece muito rude abre a porta vorazmente. Aparentava estar alcoolizado, e de repente ele tira uma arma do seu bolso e ameaça a moça que se punha a pegar a criança rapidamente em seus braços, e como um instinto materno protege o frágil bebê e leva um tiro.

          Acordei assustada e um pouco eufórica, assim que abri os olhos pensei estar vendo a mesma mulher loira dos meus sonhos em minha frente, ali parada, como se estivesse esperando que eu acordasse. Esfreguei os olhos assustada e rapidamente; quando tornei a abri-los a moça à qual tinha visto já não estava mais lá. Então me levantei, e assim que cheguei até a cozinha minha tia Bruna estava lá com uma linda mesa de café da manhã, já posta.

- Bom dia Eduarda, como passou a noite?

Perguntou minha tia a mim, com um tom de quem só havia perguntado mesmo por educação.

- Bem, obrigada por perguntar!

          Quando olhei para o relógio cucu que estava na cozinha, vi que já passava do meio dia.

- Tia porque você não me acordou antes? Eu estou mais que atrasada pra faculdade!

- Desculpa Duda, mais eu não queria te acordar, você teve uma semana muito puxada, e mesmo com a morte da Larissa, você continuou indo pra faculdade. Acabei de ligar para lá e disse que você não estava em condições de ir. Vai ficar em casa descansando por uma semana; acho que é o suficiente.

- A senhora está de fato ficando maluca. Eu não posso faltar por uma semana, isso é loucura.

- Calma Duda, é para o seu próprio bem.

          Não conseguia acreditar que a Bruna tinha feito aquilo, porem fui até o quarto da minha mãe e fiquei lá mexendo nas coisas dela durante um bom tempo. Creio que devo ter olhado quase todos os álbuns de fotos, coisa que eu nunca tinha feito antes, minha mãe não deixava, costumava dizer que: no passado não se deve mexer. Até que certa foto me intrigou... Eram 3 garotas sendo que duas delas pareciam ser gemias e a outra apesar de não idêntica as duas era também super semelhante. No verso da fotografia estava escrito:

Minhas lindas filhas, Larissa, Lara e Bruna. 1965.

          Demorei um pouco para entender oque estava se passando ali, Larissa e Bruna eram minha mãe e tia, porem não sabia quem era Lara, sei que era uma criança idêntica a minha mãe, acho que minha avó devia ter escrito as palavras por traz da foto; eu não cheguei a conhece-la, ela morreu pouco antes d’eu nascer. Intrigada com o que estava acontecendo, fui perguntar a minha tia quem era essa Lara que se parecia tanto a minha mãe.

- Tia, quem é essa criança da foto que se parece tanto com minha mãe?

          Perguntei com um ar discursivo.

- Acho que já está na hora de você saber toda a verdade.

Disse minha tia Bruna.

- Duda, sente-se, nós iremos ter uma conversa muito séria agora. Quando eu e sua mãe éramos mais jovens tínhamos uma outra irmã. E sua mãe, tinha uma irmã gemia, se chamava Lara, com o passar do tempo, nós crescemos como toda criança comum cresce, as gemias se casaram respectivamente; porem Lara ficou gravida primeiro, e você não sabe o quanto sua mãe queria ter uma filha, só que não podia, sua mãe era estéreo. Vendo que a Lara estava gravida, Larissa não suportou o fato de não poder ter filhos... (lagrimas)

          Enquanto minha tia me contava aquela história assombrosa, uma mulher, assustadoramente, apareceu de repente ou seu lado. Era branca, loira, como a moça dos meus sonhos, só que mais velha e estava com uma aparência um tanto cansada.

- Duda, sua mãe é a Lara.

- OQUE? Como assim? Não pode ser, isso é impossível! Como?

- A Larissa, disse a seu marido que não poderia ter filhos, e pediu que ele matasse sua gemia e seu marido, e pegasse você deles, enquanto sua mãe te punha para dormir em um pequeno berço, o marido da Larissa chegou com uma arma já depois de matar seu pai, entrou no quarto brutalmente; sua mãe como em um ato materno a tomou nos braços e o seu ‘’pai’’ a matou com um único tiro na testa.

          Eu estava em prantos, já desesperada, enquanto aquela mulher dos meus sonhos estava ali a minha frente, como se estivesse velando por mim todo o tempo, como se sempre estivesse ali ao meu lado, ela já não me assustava mais, tinha uma aparência angelical, mais já não se parecia em nada com minha ‘mãe’.

- Tia, quem é essa mulher do seu lado?

          Tia Bruna olhou pro lado desconfiada, como quem procura uma pessoa no vazio.

- Oque? Duda, não há ninguém ao meu lado!

          Na hora eu soube. Era minha mãe, quem tinha posto as flores no tumulo da irmã, quem tinha posto o meu pijama predileto encima da cama, a moça dos meus sonhos, a mulher que havia morrido para me proteger, quando eu pensei que estava sem ninguém ao meu lado, ela estava lá.

          De repente, então, veio em minha direção, como quem pede um abraço, e se desfez em minha frente, como quem diz ADEUS.


Um comentário:

  1. A história é bem interessante e criativa, a autora conseguiu abordar em seu conto fatos que estão em grandes repercussões na realidade, que são os problemas relacionados à maternidade!

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