Adalbérgia Dara
Victória Vitorino
1º ano C
Era
uma noite marcada por uma intensa chuva acompanhada de raios, que desenhavam o
céu da pequena cidade da Carolina do Norte. A luminosidade dos raios entrava
pela janela, refletindo sobre a minha cama alaranjada, as prateleiras que
continham os livros de Janiene Frost, e o mural que carregava fotos da minha
infância. Além de possuir esses utensílios, o meu cômodo tinha paredes pintadas
pela cor vinho, um guarda roupa de madeira, computador antigo e, cadernos que
eu utilizava para exercer a arte do desenho.
Mas com o tempo eu percebi que havia algo
inusitado, começaram a surgir sombras negras ao redor da minha cama e, com
esses seres os meus objetos caiam frequentemente às 24h.
Bom, eu me chamo Kathy, sou da família Cure,
que além de ser muito conhecida, é motivo de pânico à população. Os Cures
possuem comportamentos altamente agressivos costumam utilizar os utensílios da
morte, quando os objetivos não tornam realidade. Meus primos, já adotaram a
cela como moradia, pelo fato de realizar frequentemente atos vândalos a
monumentos públicos. Mesmo com essa medíocre base familiar, atribuo sentimentos
afetivos a eles.
Tenho 23 anos, e apesar de frequentar
nenhuma religião, acredito na existência de um salvador. Gosto de rock, pop e
músicas italianas. Sou dona uma estatura de 1,82 cm, olhos castanhos claros,
cabelo loiro e um corpo desenhado por tatuagens.
Às vezes, os vizinhos especulam que eu tenha
algum problema ou transtorno, pelo fato de ter poucas amizades e ser calada.
Confesso que essa timidez me irrita. Passo a maior parte do tempo pensando e,
dentro os assuntos encontram as frequentes sombras que me persegue. Este
assunto me sufoca. A minha mãe é a primeira pessoa com quem eu não posso
desabafar, pois ela passa a maior parte do tempo dedicando-se à engenharia
civil.
Na manhã seguinte, resolvi fazer compras no
bairro de Boston. Ao caminhar pela rua, percebi algumas sombras me perseguindo
novamente, então decidi correr desesperadamente, levando pela frente papelões,
baldes de lixo, me tornando o foco dos olhares das pessoas que caminhavam por
aquele local. Até as crianças deram risada da minha tamanha situação. Corri,
corri,corri, e finalmente cheguei em casa, sem a presença dos misteriosos
seres, mas estava ciente que eles poderiam voltar a me atormentar a qualquer
momento.
- Kathy, está tudo bem com você?- meu
coração disparou, mas ainda bem que era a minha vizinha Clarice.
- Oh, está sim. Como tem passado Clarice?-
perguntei-a.
- Bem. Você soube que o Davy faleceu semana
passada?
- Davy? Sério? Poxa, sinto muito- respondi.
– Vou entrar, tenha um bom dia.
Meu Deus, Davy morreu semana passada e foi
justamente neste período que começou a surgir essas perseguições. Na verdade,
ele foi o meu primeiro namorado e, o nosso relacionamento durou quatro anos.
Foi ele quem sustentou os meus prazeres, transformando-me em uma mulher. Porém,
os sucessivos ciúmes fizeram com que ocasionasse o término do nosso
relacionamento. Inconformado com este triste desfecho
amoroso, e com as minhas saídas com o Nicholas, ele começou a me perseguir,
dizendo que eu jamais ficaria com outro homem, pois era com ele que eu deveria
estar.
Semelhante aos começos de namoro, Davy me
levava a lugares exóticos e, costumava a me enviar flores acompanhadas com
cartas, todas as manhãs. Com o passar do tempo, ele me mostrou a sua verdadeira
personalidade, tendo como um péssimo defeito, a mania de querer dominar o próximo. Isso me levou a ter uma
decisão jamais especulada.
Ao chegar em casa, coloquei a minha bolsa
sob o sofá. A sala estava escura e empoeirada, permitindo o início dos períodos
de crises alérgicas. Então subi as escadas e caminhei em direção ao meu quarto.
Ao segurar a maceneta, tive uma sensação anormal. Eu sabia que nas últimas
semanas, o meu quarto estava possuído por mistérios e, eu estava pronta para
acabar com esse pesadelo.
- Não, eu não estou preparada!- eu disse
criando uma antítese entre os meus pensamentos.
Só em pensar na possibilidade de entrar no
meu quarto, eu era dominada pelos calafrios e crises de tonturas.
De repente, surgiu uma forte ventania, a
qual tinha uma força capaz de destruir o pesado vaso indiano da minha bisavó.
As fortes correntes de ventos, cada vez mais aumentavam as freqüências de
maneira assustadora. Mas não foi só isso, os temidos raios que invadiram o meu
quarto na noite passada, retornaram com grande vigor. As portas do fundo se
fecharam possibilitando um grande ruído. Então, o meu corpo foi tomado por
sensações surpreendedoras, e a pulsação do meu coração disparou, como uma
Ferrari em partidas da F1, quando surgiram vozes e pássaros pretos no corredor.
Copos começaram a quebrar, colhas começaram a voar, meu coração começou a disparar,
até que a marceneta da porta se moveu e...
Tive recordações da minha infância, onde
ouvi a amiga da minha mãe – Ellen- falar que os espíritos realmente existem, e
que eles perseguiam os seres vivos para se vingar. Não, mas por que o Davy iria
fazer isso já que ele me amava tanto, e se eu não estou com o Nicholas?
Quando eu vi a marceneta se movendo, tentei
correr, mas os meus músculos paralisaram, impossibilitando a minha locomoção.
Enquanto a minha tentativa de fuga foi amplamente frustrante, nuvens negras iam
a minha direção. O corredor estava completamente tomado por um cenário preto. Então
a minha única solução foi me atirar na escada, para ter uma aproximação com a
morte, pois era ela que seria minha solução nesse momento, e então...
“Kathy”. Essa foi a primeira palavra que eu
ouvi ao me despertar numa manhã ensolarada. Foi a minha mãe que pronunciou o
meu nome.
- Mãe, onde estou?- Perguntei-a. Pude
perceber que eu estava sob uma cama hospitalar, e rodeada de duas enfermeiras. -
O que estou fazendo aqui no hospital?
- Filha, esta é a Centro Clínico Elizabeth I
– Ao me atribuir esta informação, notei nos seus olhos um sentimento
melancólico.
- Centro Clínico? Como assim?- Questionei.
- Quando eu cheguei em casa, eu avistei você
caída na escada, dizendo “não, não, me deixe em paz”, de maneira inconsciente,
como se estivesse tendo um pesadelo. E, além disso, havia sido relatada sobre
as suas mudanças de comportamento, e principalmente sobre as suas correrias no
bairro Boston. Quando vi você naquele estado, tive a idéia de ti trazer a esta
casa.
Em meio a esta conversa, tive uma grande
surpresa. Fui diagnosticada como portadora de uma doença que destrói a paz de
um indivíduo, que obriga a viver cenas caóticas. Nunca pensei que seria
obrigada a obtê-la. Essa notícia mexeu comigo, senti que a minha vida seria
totalmente diferente daquela que eu tinha planejado. Mais uma vez precisava de
alguém para desabafar, mas não havia ninguém naquela hora que eu pudesse
depositar a minha confiança. Fui
submetida a uma crise de lágrimas. A partir daquele momento, fiquei ciente que
eu não poderia mais dirigir a minha própria vida, ser independente. E sim, que
os remédios agiriam por mim, trazendo uma dependência.
Nos primeiros dias foram difíceis, mas
depois me acostumei, construí algumas amizades. Iniciei a minha participação no
Papo 10. É uma espécie de encontros que tem duração de duas horas, onde os pacientes
se reúnem, junto com uma equipe médica, com a intenção de haver trocas de
experiências, desabafos, proporcionando sensações de bem-estar. Estabeleci o meu
padrão pouco social, parecia uma muda durantes as reuniões.
Com o tempo, minha mãe diminuiu as
frequências de visitas. Mas, o CCE investiu em atividades artísticas, como
ensino de costura e bordado, música, e dança, sendo suficiente para preencher o
meu tempo, e me distanciar da tristeza.
Conheci o Joaquim, um médico meigo e
atencioso. Desde o dia que eu o conheci na clínica, trocamos olhares. Ele é
especializado em psicanálise. Tivemos um bom início de amizade e rapidamente
começamos a dialogar. Os momentos que passamos juntos são satisfatórios, rimos
a maior parte do tempo. Além das risadas, nós costumamos conversar sobre, música,
amizades, infância, e relacionamentos.
O tempo passou, nossa amizade se fortaleceu
e Joaquim me pediu em namoro. É meio estranho uma paciente namorar um especialista
no seu problema. Fiquei três meses sem ter crises. Mesmo assim, continuei
utilizando fortes medicamentos.
Quando eu e o Joaquim decidimos ir para a
área de lazer, para comemorar os meus oito meses na clínica, o tempo estava
nublado, correndo o risco de haver tempestades a qualquer momento. E foi isso
que aconteceu, os raios desenharam o céu, o que possibilitou relembrar os
momentos de terror que eu vivenciei. Naquela época eu estava sozinha, mas agora
eu tenho Joaquim. Ele percebeu que eu estava revivendo as cenas nos meus
pensamentos, então me abraçou e acariciou as minhas mãos.
- Pode contar comigo – sussurrou o “Joh” no
meu ouvido.
- Obrigado por existir – respondi.
Os
problemas por qual eu passei e ainda vivo, foram extremamente responsáveis para
um amadurecimento pessoal. Apesar de não acreditar no destino, confesso que ele
realmente costurou a minha história, e que os seres humanos precisam encarar os
seus obstáculos com fé e determinação.Graças a estas duas peças eu hoje me
encontro curada da bipolaridade
A história está muito criativa e muito rica em detalhes, isso faz com que possamos imaginar o ambiente e "fazer parte da história" ou seja interagir junto à ela. Parabéns !
ResponderExcluirAllicya Cristina 1ºC