sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O código 47- Clara Amin, Diacuí Benazie, Luis Felipe e Tauwane Lima - 1ºC


Clara Amim Bonina;
Diacuí Benazir Sá;
 Luiz Felipe Oliveira;         
Tauwane Lima.
1ºC

9:47p.m

A escuridão da sala era oprimida pela luz que ofuscavam meus olhos, a sensação de ser observado e não saber por quem, ainda me perseguia.  A única coisa visível na sala era a inquietude dos dedos encima do estremecer das minhas pernas. O vestido curto permitia o fluxo de ar frio por entre minhas pernas, estremeci. As algemas apertavam meus pulsos que no momento ainda se encontravam sujos de sangue e terra gerando um odor insuportável que me remetia à ideia de haver realmente um cadáver ali.
Por um instante esqueci onde eu estava e me lembrei dos meus amigos, o que estariam acontecendo com eles? Estariam eles juntos? A falta de respostas me deixava mais insegura. O meu foco era um vidro escuro, minha única certeza era a de estar sendo observada. O tráfego de ideias que circulavam em minha mente foi subitamente cortado pelo som dos passos que se aproximavam, senti o fluxo de sangue que corria em minhas veias acelerar-se conforme o ranger das dobradiças enferrujadas. Ao abrir a porta, o odor insuportável de cadáver tomou completamente a sala fria e escura. Avistei uma sombra desfigurada, assustadora, perturbadora, enfim, anormal.
Não consegui distinguir o que era. Aquilo era humano? O movimento rápido de suas mãos interrompeu meu conflito interno, meu foco agora era o objeto macabro que esse retirou do bolso, surpreendendo-me quando subitamente apontou-o em minha direção. Chegou minha hora, não pude deixar de pensar. E a minha família? Quem iria ao meu enterro? Vão sentir minha falta? Vão chorar? Realmente existe um Céu, um Inferno? E agora, pra onde eu vou? A voz grossa do homem, sim era um homem e não uma coisa me tirou mais uma vez do meu conflito interno. Preciso me concentrar.
- Acendam a luz! – ordenou o homem bruscamente.
A luz penetrou em minha pupila como fogo, pressionei minhas pálpebras desesperadamente, na tentativa de enxergar o objeto macabro que já estava sobre a mesa. Ao me recompor, pude perceber que o objeto não era tão macabro assim, era simplesmente um gravador prateado, como o do meu pai. Meu pai!
- Tenho direito a uma ligação. – balbuciei.
- Responda-me, diretamente. – gritou, ignorando meu clamor.
- Não fiz nada. – retruquei.
- Que tal começar explicando o estado de suas roupas. – indagou ironicamente.
Minhas roupas, nossa paguei tão caro por um pedacinho de pano que agora está permitindo que o frio tome conta de mim por inteira. Eu estava um caco, maquiagem borrada, vestido rasgado, salto quebrado e unhas sujas de uma mistura que não consegui identificar. O homem desfigurado, ele era muito estranho mesmo, me olhava com aqueles olhos ferozes, como se quisesse arrancar cada palavra sobre o acontecido.

1:47 p.m.
A campainha toca freneticamente. Ninguém vai atender isso? Credo.
- Cássia,os meninos chegaram. – avisou minha mãe.
Num instante meu quarto ficou tomado de roupas, sapatos, maquiagem e indecisões. Minha janela sempre aberta nos expôs a massa de ar fria que adentrava no meu quarto, revirando meus papéis na escrivaninha.
-Chuva! Ninguém merece, meu cabelo! –disse Eller com voz embargada de choro.
Fui verificar. Notei que na casa ao lado havia alguém.
- Essa casa não é abandonada?! – perguntei confusa.
Ignorada fiquei, todos estavam preocupados com suas roupas e acessórios, achei melhor fechar a cortina. Intrigada fiquei, a razão me implorava pra saber o que estava acontecendo, mas a história me prendia aquele cenário sombrio. Abri a cortina, mas não havia ninguém mais lá. Esse mistério me chamava, resolvi descer. Mas sozinha eu não ia. Desisti, tinha um casamento pra ir, voltei para o quarto onde risos e almofadas já tinham tomado conta da decoração exagerada do meu quarto.

3: 47 p.m.
A pressa tomou conta dos meus pés, minha mãe buzinava lá fora, a cortina aberta convidando-me para olhar a casa ao lado, eu estava a mil, não sabia para onde ir.
- Vamos Cássia! – apressou-me Elvis, meu melhor amigo homossexual, nossa que preconceituoso eu poderia ter poupado esse adjetivo. Conflito interno interrompido pela buzina do Volvo preto da minha mãe. Por falar nisso, meu pai sempre tão presente que até me esqueci do policial Hastings.  Ele é delegado, e como tal trabalha dia e noite no Departamento de Polícia da cidade, mas hoje resolveu comparecer a este evento especial, o casamento de nossos primos Raul e Amy.
Perdida em minhas lembranças não notei que o homem desfigurado me enchia de perguntas.
- Ei, garota não está me ouvindo?! – questionou-me o homem irritado.
Tentei balbuciar algumas palavras, mas as recordações vieram com mais presença, detalhes antes não vistos me eram fornecidos com muita facilidade.

5:47 p.m.

Aquela música fúnebre que sempre toca nos casamentos tradicionais, me fez estremecer. Pensei ter visto uma sombra familiar, mas logo fui tomada pelo buquê de tulipas amarelas, aquele perfume de jardim me tomou por inteiro, um aroma suave que foi cortado pela brutalidade dos traços rudes do homem que me observava na última fileira. Percebi que esse possuía a mesma fisionomia da sombra assustadora que havia visto na casa ao lado da minha. Como não percebi antes? Senti algo vibrar, o celular em contato com o banco emitiu um ruído estranho, corei. Senti uns poucos olhares voltados para mim, mas por pouco tempo, era apenas uma mensagem:



[Número Restrito]

Esqueci em casa o presente, volte lá e pegue-o no porão. As chaves estão dentro do carro, ligue o GPS.

Hastings.

Tentei achar minha mãe, impossível, muitos convidados, achei melhor obedecer. Sai frenética em direção ao carro. Estranho ele me deixar pegar o carro, geralmente ele faz questão de tirar minha mãe dos lugares para me levar, deve estar mais ocupado do que nunca.
A sensação de estar sendo seguida me perseguia com vigor, resolvi então chamar Eller e Elvis. Seria perda de tempo sair para procurar os dois, então liguei. Ao alcançarem o carro, entrei com pressa e liguei o GPS. Estava excitada por dirigir o Volvo, a voz eletrônica que saia pelas caixas de som tirou-me do meu êxtase. “Vire à direita.” Como assim? Minha casa fica para esquerda, achei melhor seguir os comandos, não eram ordens de uma máquina e sim do meu pai.
“Destino alcançado.” Chegamos e aquele lugar não se parecia em nada com a minha casa, muito menos com a minha rua. Não tive como deixar de notar a placa caída no chão, Rua 47, nem sabia que essa rua existia.
- Que tipo de lugar é esse? Pra onde você vai nos levar? Não sabia que você andava por esse lado da cidade. – repreendeu-me Elvis.
Balbuciei alguns ruídos que nem eu consegui identificar, essa rua me era familiar, esse tipo de lugar é a cara do meu pai, típico subúrbio. Notei que havia um bilhete com meu nome na placa, desci do carro, peguei o bilhete e entrei novamente, onde me sentia segura.
“47°E 47°N”
- Que números e letras são essas? – indaguei.
- Isso que dá faltar às aulas de Geografia. São coordenadas de latitude e longitude. Vamos, eu posso chegar lá, estudo pra isso. – convenceu-me Elvis.
Ao chegar ao local havia uma pá. Que diabos, meu pai enterrou o presente aqui?! Algum tipo de tesouro?! Vamos cavar. Meus pensamentos novamente interrompidos pelo grito de Eller.
- TEM UM CANUDO NA TERRA! LEIA O BILHETE.
“Apura-te, neste caso a pressa é amiga da perfeição!”
Lembrei-me de respirar, ofegante, cavei freneticamente, Elvis e Eller me seguiram fielmente. Avistei um dedo, o brilho da aliança enlameada ofuscou meus olhos, instintivamente parei de cavar, retirei-a. Fui tomada por uma luz vinda de trás.
- Mãos para alto! – gritou o policial.
Eller e Elvis levantaram subitamente. Limpei rapidamente a aliança dourada, antes de ser abordada por mãos gélidas, estremeci. Num lapso conseguir ler, ainda que com dificuldade, o que estava escrito no arco dourado:

                                                                                                                       Amy 1987.

Sempre imaginei ser presa, por drogas, álcool, e agora por salvar meu pai, isso está errado.

- MEU PAI ESTÁ ENTERRADO, AQUI. – implorei por misericórdia.
Ouvi risos, ignorada fiquei, foi como se tivesse falado com o nada.
- Isso é o seu pai? – segurando o dedo tão frágil em suas mãos rudes e grosseiras.
Uma lágrima brotou em meio aquela indignação. Seguirei o choro. Bruscamente fui jogada na viatura, Eller amorteceu minha queda e em meio a toda confusão me senti reconfortada pelo calor de seu corpo.

9:37 p.m.

Ao chegar à delegacia fui separada dos meus amigos, e posta em uma sala na qual me encontro agora. Ouvi rumores que acharam o resto do cadáver, não era meu pai. Aliviada e confusa fiquei, e a aliança com o nome da minha mãe, onde estava?

9:47 p.m.

- E aquela ligação?! – insisti.
- Mas você ainda não me respondeu sobre como ficou nesse estado? – retrucou
- Eu sei dos meus direitos e eu tenho direito a uma ligação! – disse bem convincente.
- Você faz o telefonema e depois eu retorno com as minhas perguntas. – disse o homem desfigurado, com um ar orgulhoso.
Ao levantar da cadeira, a sensação de calor retornava ao meu corpo conforme eu me aproximava ao telefone. Ao discar aqueles números, meus olhos buscavam freneticamente por toda a delegacia, a imagem do meu pai, com a esperança de que aquilo tudo se resolvesse da maneira mais rápida possível e eu pudesse voltar pra casa.
A cada toque, minha esperança de voltar pra casa diminuía e a sensação de estar sozinha tomava conta do meu corpo, estremeci.
- Seu tempo acabou. – falou em quanto me puxava e me levava pra onde eu nunca mais queria voltar.
- Agora me conte tudo. – disse o homem grosseiramente.
- Eu não consegui falar com minha mãe, então também não vou falar com você. – disse com bastante firmeza em minha voz.
- Você foi pega com a arma do crime na mão e ainda quer que eu acredite em você? Qual a sua ligação com Michael Smith? E qual o propósito deste assassinato?
O que esta acontecendo? Eu não matei ninguém. Meu deus do céu, como fui burra, armaram pra mim. Meu conflito interno, novamente interrompido, mas desta vez por mãos rudes que me puxaram grosseiramente em direção à cela mais próxima. Ao entrar na cela fui reconfortada pelo abraço tão familiar de meus amigos.
- Pacote para Cássia Hastings. – entregou-me o policial.
A curiosidade já nem mais fazia parte da minha mente, enrolei o máximo possível para não abrir o pacote, todavia Eller e Elvis não se conteram, tomando o pacote das minhas mãos e obrigando-me a ler o que havia escrito nele:



“Foi um prazer jogar com você, porém não tão divertido o quanto eu esperava, achei que fosse mais parecida com o seu pai.

 Detalhes, prenda-se aos detalhes. Adolescentes não tem o hábito de se preocuparem com horários....”


Não pude resistir e me peguei olhando ao relógio.



“[...] Tarde demais, agora não adianta mais olhar, são 10:47 p.m., não é? Não lhe é familiar? Rua 47, 47°E 47°N.... pensei que fosse mais esperta. O policial Hastings foi minha mais linda obra de arte, a 47ª se não me engano, espero que aprecie...”


Várias lágrimas escorreram pelo meu rosto, que agora se encontrava pálido e fúnebre. O pouco das forças que ainda me restava foram utilizadas para abrir a caixa.  Ao ver aquilo, larguei essa no mesmo instante.

O conteúdo da caixa que agora estava visível e aproximava-se de mim como um imã, rolou e parou em frente aos meus pés. Um dedo com um arco dourado.

Um comentário:

  1. Além de possuir um enredo interessante, o conto se desenvolve de maneira genial pela utilização de uma linguagem condensada, rica em figuras de linguagem, despertando um grande interesse no leitor.

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