Clara Amim Bonina;
Diacuí Benazir Sá;
Luiz Felipe
Oliveira;
Tauwane Lima.
1ºC
9:47p.m
A
escuridão da sala era oprimida pela luz que ofuscavam meus olhos, a sensação de
ser observado e não saber por quem, ainda me perseguia. A única coisa visível na sala era a
inquietude dos dedos encima do estremecer das minhas pernas. O vestido curto
permitia o fluxo de ar frio por entre minhas pernas, estremeci. As algemas
apertavam meus pulsos que no momento ainda se encontravam sujos de sangue e
terra gerando um odor insuportável que me remetia à ideia de haver realmente um
cadáver ali.
Por
um instante esqueci onde eu estava e me lembrei dos meus amigos, o que estariam
acontecendo com eles? Estariam eles juntos? A falta de respostas me deixava
mais insegura. O meu foco era um vidro escuro, minha única certeza era a de
estar sendo observada. O tráfego de ideias que circulavam em minha mente foi
subitamente cortado pelo som dos passos que se aproximavam, senti o fluxo de
sangue que corria em minhas veias acelerar-se conforme o ranger das dobradiças
enferrujadas. Ao abrir a porta, o odor insuportável de cadáver tomou
completamente a sala fria e escura. Avistei uma sombra desfigurada,
assustadora, perturbadora, enfim, anormal.
Não
consegui distinguir o que era. Aquilo era humano? O movimento rápido de suas
mãos interrompeu meu conflito interno, meu foco agora era o objeto macabro que
esse retirou do bolso, surpreendendo-me quando subitamente apontou-o em minha
direção. Chegou minha hora, não pude deixar de pensar. E a minha família? Quem iria
ao meu enterro? Vão sentir minha falta? Vão chorar? Realmente existe um Céu, um
Inferno? E agora, pra onde eu vou? A voz grossa do homem, sim era um homem e
não uma coisa me tirou mais uma vez do meu conflito interno. Preciso me
concentrar.
-
Acendam a luz! – ordenou o homem bruscamente.
A
luz penetrou em minha pupila como fogo, pressionei minhas pálpebras
desesperadamente, na tentativa de enxergar o objeto macabro que já estava sobre
a mesa. Ao me recompor, pude perceber que o objeto não era tão macabro assim,
era simplesmente um gravador prateado, como o do meu pai. Meu pai!
-
Tenho direito a uma ligação. – balbuciei.
-
Responda-me, diretamente. – gritou, ignorando meu clamor.
-
Não fiz nada. – retruquei.
-
Que tal começar explicando o estado de suas roupas. – indagou ironicamente.
Minhas
roupas, nossa paguei tão caro por um pedacinho de pano que agora está
permitindo que o frio tome conta de mim por inteira. Eu estava um caco,
maquiagem borrada, vestido rasgado, salto quebrado e unhas sujas de uma mistura
que não consegui identificar. O homem desfigurado, ele era muito estranho
mesmo, me olhava com aqueles olhos ferozes, como se quisesse arrancar cada
palavra sobre o acontecido.
1:47
p.m.
A campainha toca freneticamente. Ninguém vai atender isso? Credo.
-
Cássia,os meninos chegaram. – avisou minha mãe.
Num
instante meu quarto ficou tomado de roupas, sapatos, maquiagem e indecisões.
Minha janela sempre aberta nos expôs a massa de ar fria que adentrava no meu
quarto, revirando meus papéis na escrivaninha.
-Chuva! Ninguém merece, meu cabelo! –disse Eller com voz embargada de choro.
Fui
verificar. Notei que na casa ao lado havia alguém.
-
Essa casa não é abandonada?! – perguntei confusa.
Ignorada
fiquei, todos estavam preocupados com suas roupas e acessórios, achei melhor
fechar a cortina. Intrigada fiquei, a razão me implorava pra saber o que estava
acontecendo, mas a história me prendia aquele cenário sombrio. Abri a cortina,
mas não havia ninguém mais lá. Esse mistério me chamava, resolvi descer. Mas
sozinha eu não ia. Desisti, tinha um casamento pra ir, voltei para o quarto
onde risos e almofadas já tinham tomado conta da decoração exagerada do meu
quarto.
3:
47 p.m.
A
pressa tomou conta dos meus pés, minha mãe buzinava lá fora, a cortina aberta
convidando-me para olhar a casa ao lado, eu estava a mil, não sabia para onde
ir.
-
Vamos Cássia! – apressou-me Elvis, meu melhor amigo homossexual, nossa que
preconceituoso eu poderia ter poupado esse adjetivo. Conflito interno interrompido
pela buzina do Volvo preto da minha mãe. Por falar nisso, meu pai sempre tão
presente que até me esqueci do policial Hastings. Ele é delegado, e como tal trabalha dia e
noite no Departamento de Polícia da cidade, mas hoje resolveu comparecer a este
evento especial, o casamento de nossos primos Raul e Amy.
Perdida
em minhas lembranças não notei que o homem desfigurado me enchia de perguntas.
-
Ei, garota não está me ouvindo?! – questionou-me o homem irritado.
Tentei
balbuciar algumas palavras, mas as recordações vieram com mais presença,
detalhes antes não vistos me eram fornecidos com muita facilidade.
5:47
p.m.
Aquela
música fúnebre que sempre toca nos casamentos tradicionais, me fez estremecer. Pensei
ter visto uma sombra familiar, mas logo fui tomada pelo buquê de tulipas
amarelas, aquele perfume de jardim me tomou por inteiro, um aroma suave que foi
cortado pela brutalidade dos traços rudes do homem que me observava na última
fileira. Percebi que esse possuía a mesma fisionomia da sombra assustadora que
havia visto na casa ao lado da minha. Como não percebi antes? Senti algo
vibrar, o celular em contato com o banco emitiu um ruído estranho, corei. Senti
uns poucos olhares voltados para mim, mas por pouco tempo, era apenas uma mensagem:
|
[Número Restrito]
Esqueci em casa o
presente, volte lá e pegue-o no porão. As chaves estão dentro do carro,
ligue o GPS.
Hastings.
|
Tentei achar minha mãe,
impossível, muitos convidados, achei melhor obedecer. Sai frenética em direção
ao carro. Estranho ele me deixar pegar o carro, geralmente ele faz questão de
tirar minha mãe dos lugares para me levar, deve estar mais ocupado do que
nunca.
A sensação de estar
sendo seguida me perseguia com vigor, resolvi então chamar Eller e Elvis. Seria
perda de tempo sair para procurar os dois, então liguei. Ao alcançarem o carro,
entrei com pressa e liguei o GPS. Estava excitada por dirigir o Volvo, a voz
eletrônica que saia pelas caixas de som tirou-me do meu êxtase. “Vire à
direita.” Como assim? Minha casa fica para esquerda, achei melhor seguir os
comandos, não eram ordens de uma máquina e sim do meu pai.
“Destino alcançado.”
Chegamos e aquele lugar não se parecia em nada com a minha casa, muito menos
com a minha rua. Não tive como deixar de notar a placa caída no chão, Rua 47, nem sabia que essa rua existia.
- Que tipo de lugar é
esse? Pra onde você vai nos levar? Não sabia que você andava por esse lado da
cidade. – repreendeu-me Elvis.
Balbuciei alguns ruídos
que nem eu consegui identificar, essa rua me era familiar, esse tipo de lugar é
a cara do meu pai, típico subúrbio. Notei que havia um bilhete com meu nome na
placa, desci do carro, peguei o bilhete e entrei novamente, onde me sentia
segura.
“47°E 47°N”
- Que números e letras
são essas? – indaguei.
- Isso que dá faltar às
aulas de Geografia. São coordenadas de latitude e longitude. Vamos, eu posso
chegar lá, estudo pra isso. – convenceu-me Elvis.
Ao chegar ao local
havia uma pá. Que diabos, meu pai enterrou o presente aqui?! Algum tipo de
tesouro?! Vamos cavar. Meus pensamentos novamente interrompidos pelo grito de
Eller.
- TEM UM CANUDO NA
TERRA! LEIA O BILHETE.
“Apura-te, neste caso a
pressa é amiga da perfeição!”
Lembrei-me de respirar,
ofegante, cavei freneticamente, Elvis e Eller me seguiram fielmente. Avistei um
dedo, o brilho da aliança enlameada ofuscou meus olhos, instintivamente parei
de cavar, retirei-a. Fui tomada por uma luz vinda de trás.
- Mãos para alto! –
gritou o policial.
Eller e Elvis
levantaram subitamente. Limpei rapidamente a aliança dourada, antes de ser
abordada por mãos gélidas, estremeci. Num lapso conseguir ler, ainda que com
dificuldade, o que estava escrito no arco dourado:
Amy 1987.
Sempre imaginei ser
presa, por drogas, álcool, e agora por salvar meu pai, isso está errado.
- MEU PAI ESTÁ
ENTERRADO, AQUI. – implorei por misericórdia.
Ouvi risos, ignorada
fiquei, foi como se tivesse falado com o nada.
- Isso é o seu pai? –
segurando o dedo tão frágil em suas mãos rudes e grosseiras.
Uma lágrima brotou em
meio aquela indignação. Seguirei o choro. Bruscamente fui jogada na viatura,
Eller amorteceu minha queda e em meio a toda confusão me senti reconfortada
pelo calor de seu corpo.
9:37 p.m.
Ao chegar à delegacia
fui separada dos meus amigos, e posta em uma sala na qual me encontro agora.
Ouvi rumores que acharam o resto do cadáver, não era meu pai. Aliviada e
confusa fiquei, e a aliança com o nome da minha mãe, onde estava?
9:47 p.m.
- E aquela ligação?! –
insisti.
- Mas você ainda não me
respondeu sobre como ficou nesse estado? – retrucou
- Eu sei dos meus
direitos e eu tenho direito a uma ligação! – disse bem convincente.
- Você faz o telefonema
e depois eu retorno com as minhas perguntas. – disse o homem desfigurado, com
um ar orgulhoso.
Ao levantar da cadeira,
a sensação de calor retornava ao meu corpo conforme eu me aproximava ao
telefone. Ao discar aqueles números, meus olhos buscavam freneticamente por
toda a delegacia, a imagem do meu pai, com a esperança de que aquilo tudo se
resolvesse da maneira mais rápida possível e eu pudesse voltar pra casa.
A cada toque, minha
esperança de voltar pra casa diminuía e a sensação de estar sozinha tomava
conta do meu corpo, estremeci.
- Seu tempo acabou. –
falou em quanto me puxava e me levava pra onde eu nunca mais queria voltar.
- Agora me conte tudo.
– disse o homem grosseiramente.
- Eu não consegui falar
com minha mãe, então também não vou falar com você. – disse com bastante
firmeza em minha voz.
- Você foi pega com a
arma do crime na mão e ainda quer que eu acredite em você? Qual a sua ligação
com Michael Smith? E qual o propósito deste assassinato?
O que esta acontecendo?
Eu não matei ninguém. Meu deus do céu, como fui burra, armaram pra mim. Meu
conflito interno, novamente interrompido, mas desta vez por mãos rudes que me
puxaram grosseiramente em direção à cela mais próxima. Ao entrar na cela fui reconfortada
pelo abraço tão familiar de meus amigos.
- Pacote para Cássia
Hastings. – entregou-me o policial.
A curiosidade já nem
mais fazia parte da minha mente, enrolei o máximo possível para não abrir o
pacote, todavia Eller e Elvis não se conteram, tomando o pacote das minhas mãos
e obrigando-me a ler o que havia escrito nele:
|
“Foi um prazer
jogar com você, porém não tão divertido o quanto eu esperava, achei que
fosse mais parecida com o seu pai.
Detalhes, prenda-se aos detalhes.
Adolescentes não tem o hábito de se preocuparem com horários....”
|
|
“[...] Tarde
demais, agora não adianta mais olhar, são 10:47 p.m., não é? Não lhe é
familiar? Rua 47, 47°E 47°N.... pensei que fosse mais esperta. O policial
Hastings foi minha mais linda obra de arte, a 47ª se não me engano, espero
que aprecie...”
|
O conteúdo da caixa que
agora estava visível e aproximava-se de mim como um imã, rolou e parou em
frente aos meus pés. Um dedo com um arco dourado.
Além de possuir um enredo interessante, o conto se desenvolve de maneira genial pela utilização de uma linguagem condensada, rica em figuras de linguagem, despertando um grande interesse no leitor.
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