sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Revezes da vida- Victória Vitorino e Dara 1ºC


Adalbérgia Dara

Victória Vitorino

1º ano C

Era uma noite marcada por uma intensa chuva acompanhada de raios, que desenhavam o céu da pequena cidade da Carolina do Norte. A luminosidade dos raios entrava pela janela, refletindo sobre a minha cama alaranjada, as prateleiras que continham os livros de Janiene Frost, e o mural que carregava fotos da minha infância. Além de possuir esses utensílios, o meu cômodo tinha paredes pintadas pela cor vinho, um guarda roupa de madeira, computador antigo e, cadernos que eu utilizava para exercer a arte do desenho.
   Mas com o tempo eu percebi que havia algo inusitado, começaram a surgir sombras negras ao redor da minha cama e, com esses seres os meus objetos caiam frequentemente às 24h.
   Bom, eu me chamo Kathy, sou da família Cure, que além de ser muito conhecida, é motivo de pânico à população. Os Cures possuem comportamentos altamente agressivos costumam utilizar os utensílios da morte, quando os objetivos não tornam realidade. Meus primos, já adotaram a cela como moradia, pelo fato de realizar frequentemente atos vândalos a monumentos públicos. Mesmo com essa medíocre base familiar, atribuo sentimentos afetivos a eles.
   Tenho 23 anos, e apesar de frequentar nenhuma religião, acredito na existência de um salvador. Gosto de rock, pop e músicas italianas. Sou dona uma estatura de 1,82 cm, olhos castanhos claros, cabelo loiro e um corpo desenhado por tatuagens.
   Às vezes, os vizinhos especulam que eu tenha algum problema ou transtorno, pelo fato de ter poucas amizades e ser calada. Confesso que essa timidez me irrita. Passo a maior parte do tempo pensando e, dentro os assuntos encontram as frequentes sombras que me persegue. Este assunto me sufoca. A minha mãe é a primeira pessoa com quem eu não posso desabafar, pois ela passa a maior parte do tempo dedicando-se à engenharia civil.
   Na manhã seguinte, resolvi fazer compras no bairro de Boston. Ao caminhar pela rua, percebi algumas sombras me perseguindo novamente, então decidi correr desesperadamente, levando pela frente papelões, baldes de lixo, me tornando o foco dos olhares das pessoas que caminhavam por aquele local. Até as crianças deram risada da minha tamanha situação. Corri, corri,corri, e finalmente cheguei em casa, sem a presença dos misteriosos seres, mas estava ciente que eles poderiam voltar a me atormentar a qualquer momento.
   - Kathy, está tudo bem com você?- meu coração disparou, mas ainda bem que era a minha vizinha Clarice.
   - Oh, está sim. Como tem passado Clarice?- perguntei-a.
   - Bem. Você soube que o Davy faleceu semana passada?
   - Davy? Sério? Poxa, sinto muito- respondi. – Vou entrar, tenha um bom dia.
   Meu Deus, Davy morreu semana passada e foi justamente neste período que começou a surgir essas perseguições. Na verdade, ele foi o meu primeiro namorado e, o nosso relacionamento durou quatro anos. Foi ele quem sustentou os meus prazeres, transformando-me em uma mulher. Porém, os sucessivos ciúmes fizeram com que ocasionasse o término do nosso relacionamento.         Inconformado com este triste desfecho amoroso, e com as minhas saídas com o Nicholas, ele começou a me perseguir, dizendo que eu jamais ficaria com outro homem, pois era com ele que eu deveria estar.
   Semelhante aos começos de namoro, Davy me levava a lugares exóticos e, costumava a me enviar flores acompanhadas com cartas, todas as manhãs. Com o passar do tempo, ele me mostrou a sua verdadeira personalidade, tendo como um péssimo defeito, a mania de querer  dominar o próximo. Isso me levou a ter uma decisão jamais especulada.
   Ao chegar em casa, coloquei a minha bolsa sob o sofá. A sala estava escura e empoeirada, permitindo o início dos períodos de crises alérgicas. Então subi as escadas e caminhei em direção ao meu quarto. Ao segurar a maceneta, tive uma sensação anormal. Eu sabia que nas últimas semanas, o meu quarto estava possuído por mistérios e, eu estava pronta para acabar com esse pesadelo.
   - Não, eu não estou preparada!- eu disse criando uma antítese entre os meus pensamentos.
   Só em pensar na possibilidade de entrar no meu quarto, eu era dominada pelos calafrios e crises de tonturas.
   De repente, surgiu uma forte ventania, a qual tinha uma força capaz de destruir o pesado vaso indiano da minha bisavó. As fortes correntes de ventos, cada vez mais aumentavam as freqüências de maneira assustadora. Mas não foi só isso, os temidos raios que invadiram o meu quarto na noite passada, retornaram com grande vigor. As portas do fundo se fecharam possibilitando um grande ruído. Então, o meu corpo foi tomado por sensações surpreendedoras, e a pulsação do meu coração disparou, como uma Ferrari em partidas da F1, quando surgiram vozes e pássaros pretos no corredor. Copos começaram a quebrar, colhas começaram a voar, meu coração começou a disparar, até que a marceneta da porta se moveu e...
   Tive recordações da minha infância, onde ouvi a amiga da minha mãe – Ellen- falar que os espíritos realmente existem, e que eles perseguiam os seres vivos para se vingar. Não, mas por que o Davy iria fazer isso já que ele me amava tanto, e se eu não estou com o Nicholas?
   Quando eu vi a marceneta se movendo, tentei correr, mas os meus músculos paralisaram, impossibilitando a minha locomoção. Enquanto a minha tentativa de fuga foi amplamente frustrante, nuvens negras iam a minha direção. O corredor estava completamente tomado por um cenário preto. Então a minha única solução foi me atirar na escada, para ter uma aproximação com a morte, pois era ela que seria minha solução nesse momento, e então...
   “Kathy”. Essa foi a primeira palavra que eu ouvi ao me despertar numa manhã ensolarada. Foi a minha mãe que pronunciou o meu nome.
   - Mãe, onde estou?- Perguntei-a. Pude perceber que eu estava sob uma cama hospitalar, e rodeada de duas enfermeiras. - O que estou fazendo aqui no hospital?
   - Filha, esta é a Centro Clínico Elizabeth I – Ao me atribuir esta informação, notei nos seus olhos um sentimento melancólico.
  - Centro Clínico? Como assim?- Questionei.
  - Quando eu cheguei em casa, eu avistei você caída na escada, dizendo “não, não, me deixe em paz”, de maneira inconsciente, como se estivesse tendo um pesadelo. E, além disso, havia sido relatada sobre as suas mudanças de comportamento, e principalmente sobre as suas correrias no bairro Boston. Quando vi você naquele estado, tive a idéia de ti trazer a esta casa.
   Em meio a esta conversa, tive uma grande surpresa. Fui diagnosticada como portadora de uma doença que destrói a paz de um indivíduo, que obriga a viver cenas caóticas. Nunca pensei que seria obrigada a obtê-la. Essa notícia mexeu comigo, senti que a minha vida seria totalmente diferente daquela que eu tinha planejado. Mais uma vez precisava de alguém para desabafar, mas não havia ninguém naquela hora que eu pudesse depositar a minha confiança.  Fui submetida a uma crise de lágrimas. A partir daquele momento, fiquei ciente que eu não poderia mais dirigir a minha própria vida, ser independente. E sim, que os remédios agiriam por mim, trazendo uma dependência.
   Nos primeiros dias foram difíceis, mas depois me acostumei, construí algumas amizades. Iniciei a minha participação no Papo 10. É uma espécie de encontros que tem duração de duas horas, onde os pacientes se reúnem, junto com uma equipe médica, com a intenção de haver trocas de experiências, desabafos, proporcionando sensações de bem-estar. Estabeleci o meu padrão pouco social, parecia uma muda durantes as reuniões.
   Com o tempo, minha mãe diminuiu as frequências de visitas. Mas, o CCE investiu em atividades artísticas, como ensino de costura e bordado, música, e dança, sendo suficiente para preencher o meu tempo, e me distanciar da tristeza.
   Conheci o Joaquim, um médico meigo e atencioso. Desde o dia que eu o conheci na clínica, trocamos olhares. Ele é especializado em psicanálise. Tivemos um bom início de amizade e rapidamente começamos a dialogar. Os momentos que passamos juntos são satisfatórios, rimos a maior parte do tempo. Além das risadas, nós costumamos conversar sobre, música, amizades, infância, e relacionamentos.
   O tempo passou, nossa amizade se fortaleceu e Joaquim me pediu em namoro. É meio estranho uma paciente namorar um especialista no seu problema. Fiquei três meses sem ter crises. Mesmo assim, continuei utilizando fortes medicamentos.
   Quando eu e o Joaquim decidimos ir para a área de lazer, para comemorar os meus oito meses na clínica, o tempo estava nublado, correndo o risco de haver tempestades a qualquer momento. E foi isso que aconteceu, os raios desenharam o céu, o que possibilitou relembrar os momentos de terror que eu vivenciei. Naquela época eu estava sozinha, mas agora eu tenho Joaquim. Ele percebeu que eu estava revivendo as cenas nos meus pensamentos, então me abraçou e acariciou as minhas mãos.
   - Pode contar comigo – sussurrou o “Joh” no meu ouvido.
   - Obrigado por existir – respondi.
   Os problemas por qual eu passei e ainda vivo, foram extremamente responsáveis para um amadurecimento pessoal. Apesar de não acreditar no destino, confesso que ele realmente costurou a minha história, e que os seres humanos precisam encarar os seus obstáculos com fé e determinação.Graças a estas duas peças eu hoje me encontro curada da bipolaridade

Um comentário:

  1. A história está muito criativa e muito rica em detalhes, isso faz com que possamos imaginar o ambiente e "fazer parte da história" ou seja interagir junto à ela. Parabéns !

    Allicya Cristina 1ºC

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